20 de fevereiro de 2010

QUE HERDAMOS DA FAMÍLIA?



Seguramente não só cadeias do DNA – que as vezes pouco se diferenciam dos outros animais vivos -, tampouco podemos responder que se trata somente dos bens ou dívidas. Então, que herdamos da família além de uma mensagem genética que é unívoca e inequívoca? Herdamos no melhor dos casos uma língua que é fundamentalmente equívoca o que nos faz habitar, por sermos falantes, no mal-entendido estrutural.

É este dom que herdamos e do qual precisamos apropriar-nos, o que nos humaniza, o que nos civiliza, o que nos possibilita ser cidadãos pelos laços de discurso que estabelecemos com os outros. Isto é o que está capenga, o que está mancando cada vez mais nos dias de hoje, onde a queixa que escutamos de pais e de filhos, de professores e alunos é a incapacidade de conversar entre eles.

Um filho não só está feito de carne, também de palavras e de letras, nesse sentido a criança é primeiramente um objeto caído do corpo materno, é também um sujeito por vir.

Proliferam os objetos com os quais as pessoas se ocupam e se satisfazem em detrimento das relações com amigos, colegas de profissão, parentes, e outros. Não podemos negar que este é um processo que vemos acelerar-se, nas grandes cidades principalmente, fomentando o individualismo próprio de nossa época.

As famílias hoje estão constituídas com diferentes personagens em relação às famílias de 50 anos atrás, porém, há algo estrutural que se mantém, lugares e funções que a língua que falamos cria. Pai, mãe, filhos, irmãos, continuam a ser os lugares nos quais os humanos nos alocamos segundo seja o nosso dizer. Este grupo reduzido que compõe a família moderna mostra uma estrutura profundamente complexa condicionada por fatores culturais.

O caráter que especifica a ordem humana é a subversão do instinto a partir da qual surgem as formas fundamentais da cultura que são plenas de infinitas variantes. Hoje a ciência tem multiplicado as mães e os pais. Temos a mãe que aporta o ventre, a mãe gestante, uterina, ginecológica ou portadora. A mulher que aporta os óvulos será a mãe genética ou biológica. Temos também a mãe social ou de criação ou do amor em casos de adoção, mais nada disto diz do desejo de um filho. Nós humanos nascemos numa família – quando desejados – que nos transmite a língua que falamos, chamada de língua materna, quer dizer que em primeiro lugar herdamos a língua que nos acolhe no mundo.

Portanto, nascemos à grande família humana quando falamos, sendo, então, a língua a morada do homem, parafraseando ao poeta Hölderling.

Para o discurso da psicanálise que inaugura Lacan, o inconsciente está estruturado como uma linguagem. Ou seja que os sintomas que produzimos são a manifestação do nosso dizer, da nossa maneira de inserir-nos na língua que falamos, são a conseqüência do discurso que praticamos sem saber, o discurso do inconsciente. E quando digo discurso quero assinalar que o discurso do inconsciente é o discurso do Amo que Lacan toma em relação à dialética do Amo (1) e do Escravo que Hegel desenvolve no capítulo 4 (A certeza de si mesmo) da "Fenomenologia do Espírito". Este discurso situa ao homem numa luta a morte pelo reconhecimento do Outro. Nesta luta por puro prestigio quem se submete para não morrer é o Escravo reconhecendo no Outro um Amo. Isto o anula em seu desejo e o transforma num objeto, numa coisa a serviço do Amo, o "cosifica". Porém, o Amo se encontra num paradoxo: é reconhecido como Amo por alguém a quem ele não considera. O Amo, por não poder reconhecer ao Outro que o reconhece (o Escravo), encontra-se num beco sem saída. O Escravo, pelo contrário, reconhece desde o príncipio ao Outro (o Amo). Será suficiente impor-se a ele, fazer-se reconhecer por ele para que se estabeleça o reconhecimento mútuo e recíproco, que só pode realizar e satisfazer ao homem plena e definitivamente, segundo Hegel.

Com este discurso Hegel lhe atribui ao Amo antigo o usufruto ou gozo do trabalho do Escravo o que em Marx será chamado de mais-valia. O que Lacan modifica tem a ver com as conseqüências do gozo que lhe atribui ao Escravo que ocupa esse lugar dialético onde se "cosifica". Nesse processo dialético o saber lhe corresponde ao Escravo e está articulado (o saber) com o gozo do Outro. Este Outro, que não existe, é o produto da articulação lógica entre os significantes que lhe dão existência como campo da linguagem. Nesse campo do Outro, campo da linguagem no qual nos inscrevemos os humanos mostramos a nossa debilidade que é proporcional à sede de sentido. Temos necessidade de sentido.

O que nos mostra a filosofia desde os diálogos de Platão é o roubo, o rapto, a subtração do saber da escravidão pela operação do Amo que consistia em fazer um saber transmissível do escravo ao amo, até chegar a uma empresa maior em beneficio do amo, como pretendia Hegel com o que ele chamava de Saber Absoluto.

A este respeito, a idéia do absoluto ou imaginária do todo, tal qual é proporcionada pelo corpo, é algo que se sustém na boa forma da satisfação e constitui no limite uma forma esférica. Esta mesma forma esférica nos dá a idéia do encerro e da clausura da satisfação procurada no absoluto ou no todo. A totalidade paralisante onde nada mais se ambiciona.

É contra isto que nós psicanalistas lutamos, contra a paralisia que produz a falta de um desejo.

Por este repasse de saber do escravo o amo moderno não tem mais a estrutura do antigo. O amo moderno não é nada mais que saber, ou seja burocracia. O amo moderno para Lacan é o capitalista que frustra de seu saber ao escravo voltando-o inútil. Mais o que se dá ao escravo em troca, numa espécie de subversão, é outra coisa, um saber de amo. Por isto é que historicamente não temos feito outra coisa mais que mudar de amo. Porém o que fica no amo moderno é a essência do amo, ou seja, não sabe o que quer. É isto o que constitui a verdadeira essência do discurso do Amo pelo qual para Lacan este é o discurso do inconsciente onde o sujeito se perde, não sabe o que quer, não sabe de seu desejo.

O escravo sabe de muitas coisas, porém o que sabe mais ainda é que ele quer ao amo, mesmo que este não o saiba – o que costuma acontecer – de outro modo não seria amo. O escravo o sabe e esta é sua função como escravo. Por isso é que a coisa funciona faz muito tempo. Na relação entre o amo moderno e o escravo moderno o que substitui agora ao escravo antigo é ele mesmo como produto, tão consumível como os outros; como se diz agora temos o material humano formando parte da sociedade de consumo.

Estamos alienados agora e antigamente por sermos falantes. Alienados num discurso que nos condiciona sem que o saibamos. Este discurso que herdamos da família humana é o que praticamos no dia a dia, com o qual vemos o mundo e dele fazemos imagens plenas de sentidos. Uma ficção rígida onde, com as pretendidas revoluções sociais, só conseguimos trocar os nomes dos amos para manter um goze obscuro, um caminho à morte que não é outra coisa mais que o que chamamos de "gozo", tendência a voltar ao inanimado que se faz presente numa experiência de discurso como a prática analítica. É nesta experiência onde podemos tomar em conta o estatuto do discurso. Estatuto também no sentido jurídico do termo, posto que é no direito onde nos apercebemos de que modo o discurso estrutura o mundo real.

Num certo momento da humanidade a medicina nasce quando alguém assumiu a dor do outro e se ofereceu para aliviá-la. Nesta época a medicina opera cada vez mais de forma veterinária tratando somente as doenças e os corpos, sem escutar aos doentes.

Com a psicanálise se abre outro campo de tratamento onde os remédios cedem seu lugar à palavra.

Uma análise é uma prática onde propomos aos pacientes uma revisão do discurso do inconsciente, da revisão do discurso que nos faz seres falantes, para encontrar-nos com outro discurso que nos permita colocar em curso o desejo de saber.

É esta prática que se constitui no miolo da experiência analítica quando se pede ao paciente que abandone toda referencia mais além das quatro paredes que lhe rodeiam e produza palavras, significantes, que constituem a associação livre mediante o qual outorgamos um saber não sabido por esse que nos fala e colocamos em jogo que esse saber não sabido é o que trabalha verdadeiramente.

Mais esta via pode levar-nos ainda a uma acumulação de saber e construirmos com ela uma pequena enciclopédia sobre o que nos afeta. É aqui o momento no qual uma vez mais o analista é convocado para com seu ato recolocar agora um outro tipo de saber articulado à verdade como enígma. Um saber em tanto verdade é propriamente o que deve ser a estrutura do que chamamos a interpretação. Um saber complexo, um saber do nosso complexo de Édipo, um saber construído sobre a forma singular de inserir-nos na língua, lugar onde praticamos o incesto e o desejo de morte inconscientes, um saber sobre a nossa verdade singular que nos permita orientar-nos nos trilhos do nosso desejo.

O que eu disse no começo sobre a criança – que era um objeto caído do corpo materno e de sua condição de sujeito por vir -, e o que estive desenvolvendo nestes breves minutos me permite situar agora à criatura humana como alguém que morando primeiramente na moradia do desejo do outro, precisa alojar-se em seu desejo o qual implica: passar de ser habitada pela linguagem a habitar nela fazendo laços de discurso.

Como disse Lacan: ...o inconsciente é o discurso do outro. Este discurso do outro não é o discurso do outro em abstrato, do meu correspondente, nem sequer simplesmente do meu escravo: é o discurso do circuito no qual estou integrado. Sou um entre seus elos. É o discurso do meu pai, por exemplo, em tanto que meu pai há cometido faltas que estou absolutamente condenado a reproduzir: o que chamam super eu. Estou condenado a reproduzi-las porque é preciso que retome o discurso que ele me legou, não simplesmente porque sou seu filho, senão porque a corrente do discurso não é coisa que alguém possa deter, e eu estou precisamente encarregado de transmiti-lo na sua forma aberrante a algum outro. Tenho que colocar a algum outro o problema de uma situação vital com a qual muito possivelmente ele vai bater de frente, de sorte tal que este discurso forma um pequeno circuito no qual ficam presos toda uma família, toda uma camarilha, todo um bando, toda uma nação ou a metade do globo. Forma circular de uma palavra que está justo no limite do sentido e do sem sentido, que é problemática.


Ricardo Eduardo Delfino. Psicanalista.

PÁSSAROS



Já observou a atitude
dos pássaros ante às adversidades?

Ficam dias e dias fazendo seu ninho, recolhendo materiais, às vezes trazidos de locais distantes...

... E quando já ele está pronto e estão preparados para por os ovos, as inclemências do tempo ou a ação do ser humano ou de algum animal destrói o que com tanto esforço se consegui...

O que faz o pássaro?
Pára, abandona a tarefa?
De maneira nenhuma. Começa, uma outra vez, até que no ninho apareçam os primeiros ovos.
Muitas vezes, antes que nasçam os filhotes, um animal, uma criança, uma tormenta, volta a destruir o ninho, mas agora com seu precioso conteúdo...

Dói recomeçar do zero... Mas ainda assim o pássaro jamais emudece, nem retrocede, segue cantando e construindo, construindo e cantando...

Já sentiu que sua vida, seu trabalho, sua família, seus amigos não são o que você sonhou?

Tem vontade de dizer basta, não vale a pena o esforço, isto é demasiado para mim?
Você está cansado de recomeçar, do desgaste da luta diária, da confiança traída, das metas não alcançadas quando estava a ponto de conseguir?

Mesmo que a vida o golpeie mais uma vez, não se entregue nunca, faça uma oração, ponha sua esperança na frente e avance. Não se preocupe se na batalha seja ferido, é esperado que algo assim aconteça. Junte os pedaços de sua esperança, arme-a de novo e volte a ir em frente.

Não importa o que você passe...
Não desanime, siga adiante.
A vida é um desafio constante, mas vale a pena aceitá-lo. E sobretudo...
Nunca deixe de cantar.


Anônimo.

SABEDORIA I, III



Que dizes, viajante, de estações, países?
Colheste ao menos tédio, já que está maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?

Também o olhar está morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,

Ou como um cemitério de túmulos recentes.
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas,
Dessas desilusões choradas plas correntes,
Dos nojos como insípidos recém-nascidos.

Fala da luz de gás, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e também da Política
Com o sangue desonrado em mãos sujas de tinta.

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde há lutas e amores, a esmo,
De maneira tão triste e louca, na verdade!

Foi já bem castigada essa inocência grave?
Que achas? É duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu? E que alma capaz de os contar
Consola isso a que podes chamar tuas dores?

Ah, os outros, ah, tu! Crendo em vãos lisonjeios,
Tu que sonhavas (e era também demasiado)
Com uma qualquer morte suave e ligeira!
Ah, tu, que espécie de anjo sempre amedrontado!

Mas que intenções, que planos? Terás energia
Ou o choro destemperou esse teu coração?
A julgar pela casca, é uma árvore macia
E os teus ares não parecem de vencedor, não.

Tão desastrado ainda! e com a agravante inútil
De seres cada vez mais um sonolento idílico
A fitar pla janela o céu sempre tão estúpido
Sob o astuto olhar do diabo do meio-dia.

Sempre o mesmo na tua extrema decadência!
Ah! — Mas no teu lugar, e assumindo as culpas,
Um ser sensato quer impor outra cadência
Com o risco de alarmar um pouco os transeuntes.

Não terás, vasculhando os recantos da alma,
Um vício pra mostrar, qual sabre à luz do dia,
Algum vício risonho, descarado, que arda
E vibre, dardejante, sob o céu carmim?

Um ou mais? Se os tiveres, será melhor! E parte
Prà guerra e briga a torto e a direito, sem
Escolher ninguém e enverga a indolente máscara
Do ódio insaciado, mas farto também...

Não devemos ser tansos neste alegre mundo
Onde a felicidade não é saborosa
Se nela não vibrar algo perverso, imundo,
E quem não quer ser tanso tem de ser maldoso.

— Sabedoria humana, eu ligo a outras coisas
E, de entre esse passado de que descrevias
O tédio, em conselhos ainda mais penosos,
Só consigo lembrar-me, hoje, do mal que fiz.

Em todos os estranhos passos desta vida,
Dos lugares e dos tempos, ou também dos meus
«Azares», de mim, dos outros, da estrada seguida,
Sempre retive apenas a graça de Deus.

Se me sinto punido, é porque o devo ser.
O homem e a mulher não estão aqui em vão.
Mas espero que um dia possa conhecer
O perdão e a paz que aguardam os cristãos.

É bom não sermos tansos neste mundo efémero,
Mas pra que o não sejamos na eternidade,
O que é mais necessário que reine e governe
Nunca é a maldade, mas sim a bondade.


Paul Verlaine.

AOS INVEJOSOS



O ciúme tem algumas diferenças e algumas semelhanças com relação à inveja.

Enquanto o ciúme é baseado no medo da perda, seja a perda de atenção, pessoas, poder ou admiração. O fato é, que o medo da perda, é o grande sentimento motivador para a pessoa possessa de ciúme agir loucamente em suas sandices. O medo da perda, portanto, denuncia a fraqueza do ser humano.

Já a inveja, é bem mais sórdida, é bem mais ardilosa e negativa...
Pior do que uma fraqueza, é uma possessão psíquica maligna, é a filha mais poderosa da ira.

A intenção matriz do invejoso não é o medo da perda de algo substancial pra sua vida, como no caso do ciúme.

O primeiro motor do invejoso é exatamente a falta de conteúdo substancial em si mesmo. Ele é fruto de uma estima baixa, é filho de uma auto-imagem deformada, negativa. É a “corporificação” da presença da ausência...

Ele encontra o que falta em si em outras pessoas e passa a invejá-las.
O exemplo clássico é a história infantil da branca de neve:

“Espelho, espelho meu tem alguém mais...do que eu?

A realização pessoal de uma pessoa qualquer, a felicidade verdadeira de alguém, faz tão mal, gera tanto mal estar ao invejoso, justamente porque as virtudes naturais de outrem deflagram as suas doenças internas mais íntimas. Suas carências e complexos mais exacerbados só são expostos no comparativo com a saúde.

É aquela velha história,

A cobra encurralou o vaga-lume na floresta e disse:
__Eu vou te matar!!! O Vaga-lume prontamente respondeu:
__Mas cascavel, o que foi que eu te fiz? Não te fiz nada...
E logo a cobra respondeu:
__Vc não precisa fazer nada. Seu brilho me incomoda.

Por isso não é difícil concluir que os invejosos, aqueles que são possuídos pela inveja, se reconhecem ao primeiro olhar, a primeira conversa.

Esse reconhecimento é tamanho que quando dois estranhos, infelizes e invejosos ao se encontrarem, sem nunca terem convivido antes se reconhecem. A compatibilidade é expressa imediatamente, a empatia é tanta que parecem que são irmãos de vidas passadas.

Posto isto,
Há um fenômeno que ocorre na internet. Não é novidade pra ninguém que os iguais se unem, traçam laços de amizade entre si.

Hoje os invejosos andam aos bandos nas comunidades da internet.
E logo não é difícil concluir que as expressões de invejas se tornam coletivas...
Tornam-se covardes.

Os invejosos na internet são semelhantes aos peixes conhecidos comumente como peixe piranha.

O peixe piranha tem a característica de só atacar suas presas em bando. Jamais o ataque é individual, jamais é um duelo franco, aberto e com iguais condições...geralmente a maior característica desse espécie é a covardia. Atacam as vitimas quando elas apresentam feridas e quando elas são infinitamente em maior número do que suas presas.

Os invejosos na rede agem da mesma forma.
Buscam a covardia. Procuram estar dez, vinte vezes em maior número pra tentar destruir aqueles que possuem luz própria, e que de maneira nenhuma fez nada de mal pra ninguém.



FlavioFerr.

O TONEL DO RANCOR - repostagem



O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;
A Vingança, febril, grandes olhos absortos,
procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,
Constante, a despejar pranto e sangue de mortos.

O Diabo faz-lhe abrir uns furos misteriosos
Por onde se estravasa o líquido em tropel;
Mil anos de labor, de esforços fatigosos,
Tudo seria vão para encher o tonel.

O Rancor é qual ébrido em sórdida taverna,
Que quanto mais bebeu inda mais sede tem,
Vendo-a multiplicar como a hidra de Lerna.

- Mas se o ébrio feliz sabe com quem se avém,
O Rancor, por seu mal, não logra conseguir,
Qual torvo beberrão, acabar por dormir.


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" .

SOBRE HUMILHAÇÃO



Durante uma vida a gente é capaz de sentir de tudo, são inúmeras as sensações que nos invadem, e delas a arte igualmente já se serviu com fartura. Paixão, saudades, culpa, dor-de-cotovelo, remorso, excitação, otimismo, desejo – sabemos reconhecer cada uma destas alegrias e tristezas, não há muita novidade, já vivenciamos um pouco de cada coisa, e o que não foi vivenciado foi ao menos testemunhado através de filmes, novelas, letras de música.

Há um sentimento, no entanto, que não aparece muito, não protagoniza cenas de cinema nem vira versos com freqüência, e quando a gente sente na própria pele, é como se fosse uma visita incômoda. De humilhação que falo.

Há muitas maneiras de uma pessoa se sentir humilhada. A mais comum é aquela em que alguém nos menospreza diretamente, nos reduz, nos coloca no nosso devido lugar - que lugar é este que não permite movimento, travessia?. Geralmente são opressões hierárquicas: patrão-empregado, professor-aluno, adulto-criança. Respeitamos a hierarquia, mas não engolimos a soberba alheia, e este tipo de humilhação só não causa maior estrago porque sabemos que ele é fruto da arrogância, e os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexo de inferioridade. Humilham para não se sentirem humilhados.

Mas e quando a humilhação não é fruto da hierarquia, mas de algo muito maior e mais massacrante: o desconhecimento sobre nós mesmos? Tentamos superar uma dor antiga e não conseguimos. Procuramos ficar amigos de quem já amamos e caímos em velhas ciladas armadas pelo coração. Oferecemos nosso corpo e nosso carinho para quem já não precisa nem de um nem de outro. Motivos nobres, mas os resultados são vexatórios.

Nesses casos, não houve maldade, ninguém pretendeu nos desdenhar. Estivemos apenas enfrentando o desconhecido: nós mesmos, nossas fraquezas, nossas emoções mais escondidas, aquelas que julgávamos superadas, para sempre adormecidas, mas que de vez em quando acordam para, impiedosas, nos colocar em nosso devido lugar.


Martha Medeiros .

15 de fevereiro de 2010

ARQUITETURA E DOR



É possível dizer, no fim, que a desconfiança com relação à arquitetura gira em torno da modéstia das alegações que podem ser feitas realisticamente a seu favor. A reverência por construções belas não parece uma grande aspiração onde devemos depositar nossas esperanças de felicidade, pelo menos quando comparada com os resultados associados ao desatar de um nó científico, a se apaixonar, a acumular uma fortuna ou a deflagrar uma revolução. Dar uma profunda importância a um campo que tem tão poucos resultados e, no entanto, consome tantos de nossos recursos, nos força a reconhecer uma inquietude e até degradante falta de aspiração.

Por sua ineficácia, a arquitetura tem a mesma insignificância da jardinagem: o interesse por maçanetas de porta ou cornijas nos tetos pode parecer tão ridículo quanto a preocupação com o desenvolvimento de moitas de roseiras ou de lavandas.É perdoável concluir que existem causas mais grandiosas a que os serem humanos deveriam se dedicar.
Entretanto, depois de nos defrontarmos com algumas das contrariedades mais graves que atormentam a vida emocional e política, podemos muito bem chegar a uma avaliação mais caridosa da importância das coisas belas - ilhas de perfeição onde é possível ouvir o eco de um ideal que um dia tivemos esperanças de desejar de forma permanente.
A vida talvez tenha de se mostrar para nós em algumas das suas cores autenticamente trágicas antes que possamos começar a reagir visualmente como se deve às suas ofertas mais sutis, seja uma tapeçaria ou uma coluna coríntia, uma telha de ardósia ou uma lâmpada. Não são os jovens casais apaixonados que tendem a parar para admirar uma parede de tijolos castigada pelo tempo ou uma balaustrada que desce para um saguão, sendo o descaso por essa beleza circunscrita um colorário da crença otimista na possibilidade de se alcançar uma variedade mais visceral e definitiva de felicidade.

Talvez precisemos ter deixado uma marca indelével em nossas vidas, ter casado com a pessoa errada, perseguido uma carreira insatisfatória até a meia idade ou perdido um ente amado antes que a arquitetura comece a ter qualquer impacto perceptível em nós.
Pois quando falamos de nos "comover" diante de uma edificação, estamos aludindo a uma sensação agridoce de contraste entre as qualidades nobres gravadas numa estrutura e a realidade mais ampla e triste dentro da qual sabemos que elas existem.
Ficamos com um nó na garganta, à visão do belo por um conhecimento implícito de que a felicidade que ele sugere é a exceção.

Nas suas memórias, o teólogo alemão Paul Tillich diz que a arte não o sensibilizava quando era um rapaz mimado e sem preocupações, apesar de todos os esforços pedagógicos de seus pais e professores. Mas aí estourou a primeira Guerra Mundial, ele foi convocado e, num período de licença do seu batalhão,(três quartos do seu contingente morreriam no conflito), ele se viu no Kaiser Friedrich Museum, em Berlim, durante uma chuvarada. Ali, numa pequena galeria superior, ele se deparou com Madona e criança com oito anjos cantores , de Sandro Botticelli, e, ao encontrar com o olhar sábio, frágil, piedoso da Virgem, surpreendeu-se ao começar a soluçar descontroladamente.

Ele experimentou o que descreveu como um momento de "êxtase revelador" , as lágrimas transbordando dos seus olhos diante do contraste entre a atmosfera excepcionamente terna do quadro e as lições bárbaras que tinha aprendido nas trincheiras.

É no diálogo com a dor que muitas coisas belas adquirem o seu valor. A familiaridade com o sofrimento acaba sendo um dos pré-requisitos mais insólitos para a apreciação arquitetônica. Talvez, muito além de todas as outras exigências, tenhamos de estar um pouco tristes para que os prédios possam nos emocionar de verdade.


Trecho do livro Arquitura da Felicidade,
Alain de Botton.

22 de outubro de 2009

BRUXAS E COMO DESFAZÊ-LAS



Quem não sabe ficar sozinha acaba virando bruxa.

Bruxas são seres opacos, que vivem orbitando seres radiantes. Por isto se vestem de preto. Desativaram seus dinamismos de irradiação. Congelaram-se e não têm calor próprio. Precisam a todo instante de calor alheio e vivem distribuindo baldes de água fria. Têm medo de seu próprio calor, e por isso vivem sendo queimados em fogueiras. Têm medo de se aquecer e derreter. Têm medo do sol e vivem voando à luz fria da lua. Vivem se metendo onde não são convidadas, pois suas casas são sempre muito mal arrumadas. Suas vassouras não cuidam da casa nem alisam o chão. Suas vassouras são cavalos secos que transportam inveja. Inveja que seca os pássaros e tudo o que seja caro a qualquer criatura.

Têm verdadeiro ódio de serem esquecidas. E por isso enfeitiçam as pessoas. Modo macabro de se fazerem presentes. É como se dissessem:

- Não te esquecerás nunca de mim e sempre que qualquer coisa começar a te aquecer com seu lado encantado, eu te congelarei de medo. É preciso que fiques sozinha como eu. Para que tua solidão me faça companhia.

Têm medo da chuva e de tudo o que possa umedecer e fertilizar a terra e dar vida a qualquer semente. Por isso são secas e enrugadas. Secam até os sapos, que são bichinhos que gostam de chuva e podem se transformar em príncipes.

Bruxas são seres que desistiram de toda beleza. Murcharam. E que culpam as outras pessoas por isso. Tornaram-se feias por abrir mão de toda bondade. Secaram. Vestiram trapos de escárnio para ostentar todo seu ressentimento. Tornaram-se más para não sentir culpa. Foram vencidas pelo medo de não serem amadas. Encrespadas proclamam:

- Não sou amada porque não quero. Prefiro ser feia e ruim.

Não suportaram o risco de serem ou não amadas. Desistiram e, por um artifício defensivo do orgulho, preferem se destacar por qualquer coisa de feio. Colocam verrugas no nariz.

Bruxas cozinham em caldeirões de seu próprio ser, fétidas misturas de covardia e pretensões. Covardia, pois tendo fugido do amor preparam vinganças à traição. Pretensão, pois tendo se afastado do amor, querem por força permanecer dentro dos outros. Se encheram de reclamações contra o mundo e perderam a possibilidade de se encantar. Bruxas não vibram, estremecem. Não adormecem nem podem despertar.

As bruxas estão congeladas de medo. Por isso gostam tanto de assustar os outros.

Para desfazer uma bruxa, são necessários uma montanha de brandura, dois lagos de tranqüilidade e uma floresta de algodão.

Uma montanha de brandura para acolher todas as chispas, fagulhas e faíscas com que uma bruxa te recebe. Para que não te magoem todos os acessos de ruindade com que uma bruxa procura escapar do tédio. Não te magoes, pois isto poderia fazê-la se aproximar da culpa e refugiar-se na maldade. Branduras que possam ampará-la ao cair da vassoura. Se não fores indiferente, cairá ao não conseguir te ferir.

Com isto ela estará encurralada no tédio. Não poderá escapar via maldades. Aqui começa o caminho de volta de uma bruxa. E começarão as angústias. Pois debaixo de cada pedra de tédio existem angústias. Tédios são desvios errôneos com que se buscou evitar sofrimentos. Por esta estrada de volta, as primeiras paisagens são nuvens carregadas de culpa. Todas, muitas e a mais grave: o que fez a si mesma. Por esta altura já se farão necessários os dois lagos de serenidade. Com suas águas poderás acompanhá-la por todos os abismos, depressões e grotas congeladas que constituem seu desespero. De ter ido tão longe. De ter cultivado tanto ódio, tanta inveja, tanta covardia, tanto orgulho. De se Ter afastado tanto do amor. Não a deixes sozinha nestas paragens geladas. Ela começa a sentir frio. E esta é a única maneira de se degelar. Não se abandona ninguém, nunca, durante a nevasca. Há riscos de que se perca na neve. Terás de acompanhá-la como a água dos lagos. Água não teme cair. Água não quebra, não tem forma própria. E terás de cair, cair, cair. Como a chuva.

Por fim, num vale em fim de inverno, com a floresta de algodão se tecerá um casulo. Para que a quase ex-bruxa possa se aquecer muito, muito devagar. Mas devagar mesmo, pois que a têmpera do amor é tal que sua força jaz em poder amolecer, derreter e não perder forma.

Do casulo há de sair uma linda borboleta de primavera.

No verão, a borboleta-quase-mulher aprenderá a tecer ninho com as andorinhas. E a guardar tanto calor em seu ventre-colo-seio que será capaz de gerar, aquecer e alimentar sementes e esperanças quando chegar o outono.

Com a proximidade do inverno, há de se lembrar da avozinha que sabia – imaginem! – ficar sozinha. E tricotar. E lembrar. E contar histórias.

Sabem como a avozinha terminaria esta estória (história)? Ela diria:

- E por aquela porta acabou de ir embora uma bruxa.
- E por esta janela se podem ouvir os pássaros e ver o céu.
- E aqui dentro quem procurar... Encontra uma mulher!



Paulo Barros.

O HOMEM DE BORRACHA



Eu batia na minha infância
doze portas atrás de mim,
e o homem de borracha passava
pela brecha da fechadura.

Por todo lado aparecia
o detetive sem chapéu,
e utilizava uma goteira
como a chuva, para alcançar-me.

Caso eu morresse e ele quisesse
um menino já sepultado,
chegaria ao pequeno corpo
por um buraco de formiga.

Ocultava-me e, no verão,
ressurgiam os companheiros
de farda azul, que me chamavam
o tempo inteiro do jardim.

Quando um dia fugi de casa,
como a esperança, ele esticou
o braço fino para mim
e segurou-me no horizonte.


Alberto da Cunha Melo.

24 de julho de 2009

EUTANÁSIA



Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?
Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?
Escuta: a lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão, as montanhas se azulam no crepuscular da tarde e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela, quem aí na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?
Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas e o beijo frio da doença te azulou nos lábios a tinta do moribundo. E por que te abismas em fantasias profundas, sentado à borda de um fosso aberto, sentado na pedra de um túmulo?
Por que pensá-la... a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara outrora por uns olhos gázeos de mulher?
Sonha!... sonha antes no passado, no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis, em suas luas límpidas e suas estrelas românticas.
O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos, gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...
E quem to disse — que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse — que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores da adolescência? Quem to disse — que a vida não é uma mentira? — que a morte não é o leito das trêmulas venturas?


Álvares de Azevedo.

O RISO



"Ri, coração, tristíssimo palhaço"
Cruz E Souza



O Riso - o voltairesco clown - quem mede-o?!
- Ele, que ao frio alvor da Mágoa Humana,
Na Via-Láctea fria do Nirvana,
Alenta a Vida que tombou no Tédio!

Que à Dor se prende, e a todo o seu assédio,
E ergue à sombra da dor a que ser irmana
Lauréis em sangue de volúpia insana,
Clarões de sonho em nimbos de epicédio!

Bendito sejas, Riso, clown da Sorte
- Fogo sagrado nos festins da Morte,
- Eterno fogo, saturnal do Inferno!

Eu te bendigo! No mundano cúmulo
És a Ironia que tombou no túmulo
Nas sombras mortas dum desgosto eterno!


Augusto dos Anjos.

O IRREMEDIÁVEL



I

Uma idéia, uma Forma, um Ser
Vindo do azul e arremessado
No Estige plúmbeo e enlodaçado
Que o olho do Céu não pode ver;

Um Anjo, viajante imprudente
Que ousou amar o que é disforme
Dentro de um pesadelo enorme
A debater-se na corrente.

E a lutar, angústias sombrias!
Contra o refluxo mais feroz,
Que como um louco ruge a sós
E faz na treva acrobacias;

Um prisioneiro do bruxedo
Em suas frívolas manobras
Para evitar répteis e cobras,
Tateando a lâmpada e o segredo;

Um réu a descer sem lanterna,
Rente a um abismo cujo odor
Trai a fundura e o frio horror
De uma oscilante escada eterna,

Onde velam monstros horríveis
Cujos fosfóreos olhos fazem
Mais escura a noite em que jazem
E onde eles só ardem visíveis;

Um barco no pólo insulado,
Como num laço de cristal,
Buscando por que onda fatal
Foi neste cárcere atirado;

- Claros emblemas, traços reais
De uma fortuna atroz e vã,
Como a dizer-nos que Satã
Faz sempre bem tudo o que faz!


II

Conversa a dois, clara e sombria,
Espelho que a alma em si procura!
Fonte do Ser, límpida e impura,
Onde pulsa uma estrela fria,

Farol irônico, infernal,
Archote aceso a Satanás,
Consolo e glórias sem iguais
- A consciência dentro do Mal!


Charles Baudelaire.

POEMAS MALDITOS, GOZOSOS E DEVOTOS - XIX



Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.

Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.


Hilda Hislt.

15 de março de 2009

CRISE



Os olhos passam lentos
Tamanha é a imensidão,
Tamanha é a imensidão,
De todo um tormento.

Podres papéis, parcas informações,
Vícios de uma idéia, em polvorosa,
Nada mais será como antes,
Não há mais poder, mataram e foi oculto.

No mais espesso dos mundos
A certeza dos mestres do cálculo,
Venha, tudo é melhor aqui,
No mais displicente dos alvos.


Fernando N.

22 de fevereiro de 2009

O HOMEM VERMELHO



Não era mais da cor da pele
branca, como a tez transparente de um carneiro abatido,
Nem queria nada que o protegesse,
Desde uma química ào cobrir do sol, nada que repele.

Eterna possibilidade de sentir o viver,
O momento, o agora, a ansiedade do amanhã,
Não há exito ou alegria em qual triste ser,
Há de se viver com a instabilidade do renascer.

Assim como todos, em momentos de glória,
No senso comum dos homens, que aos pares símios se igualam,
Não importa mais quem vem para o jantar,
Nossa expectativa se concentra no banquete da vitória.

Você precisa disso, já faz parte dos alçados,
Não há remédio ou bula, que te imunize da escuridão,
Você então cede à pulsão, goza a tua experiência,
Mesmo fazendo mal, se tolera a incandescência.


Fernando N.

12 de fevereiro de 2009

HARPA ESQUISITA



Dói-te a festa feliz da verdade da vida...
Tanges da harpa, em teu sonho, almas ou cordas, cantas,
Bóiam-te as notas no ar, a asa no Azul diluída
E, assombrados, reptis - homens, não! tu levantas!

E apupilam-te a fronte as mil pedras agudas
De ódios e ódios a olhar-te.... E és um rei que as avista,
No halo, de Amor, que tens! se em colar as transmudas,
Vais - um dervixe persa, o manto azul - Artista!

Inda olhar adormido abre, e é de ocre, e avermelha!...
Vem colar-te ao colar... e oh! tua harpa esquisita
Plange... flora a zumbir minúscula, que imita
A abelheira da Dor, em centelha e centelha.

E é a sombra... E o instrumento, a gemer, iluminado,
Como que à Noite estrela um núbio corvo... E lindo
(Inda que as asas tens não no terás ao lado)
Por que os pétalos d'ouro, a haste de prata, abrindo,
Um lírio de ouro se alça?... Os passos voam-te pelas
Ribas... Oh! que ilusões da flor, que tantaliza!
Sob a flor? Sobes tu e a alma nas pedras pisa?...
Pairas... Em frente, o mar, polvos de luz - estrelas...

Pairas... e o busto a arfar - longe, vela sem norte.
Negro o céu desestrela, o seio arqueando: escuta.
No amoroso oboé solfeja um vento forte
E, alta, em surdo ressôo, a onda betúmea e bruta.

A ânsia do mar, lá vem, esfrola-se na areia...
Seu líquido cachimbo é mágoa acesa, e fuma!
E chamas a onda: "irmã" . E em fósforo incendeia
Na praia a onda do mar, ri com dentes de espuma.

De ametista, em teu sonho, uma antiga cratera
Mal te embebe - alegria! - alvos dedos de frio,
Eis se te emperla o rosto e a prantear vês, sombrio,
A onda crescer, rajar-se em brutal besta-fera!

Olhas... E, soluçoso, à musica das mágoas
Amendulas o Mar e amendulas a Terra!
A sombra aclara.... E é ver a dança verde de águas
E arvoredos dançando ao coruto da serra!

Gemes, Dedando o Azul as magras mãos dos astros
Somem, luzindo.... Ao longe, esqueleta uma ruína
Em teu sonho a enervar, argentina, argentina...
De ilusões, no horizonte, ossos brancos... são mastros!

Quentes estrias à alma, à frialgem, nas cousas...
Que bom morrer! manhã, luz, remada sonora...
Pousas um dedo níveo às níveas cordas, pousas
E és náufrago de ti, a harpa caída, agora.

Ah! os homens percorre um frêmito. Num choro...
Move oceânica a espécie, amorosa, amorosa!
Mais que um dervixe, és deus, que morre, a irradiosa
Glorificação de ouro e o sol de ouro... à paz de ouro.


Pedro Kilkerry.

TORTURA ETERNA



Impotência cruel, ó vã tortura
Ó força inútil, ansiedade humana!
Ó circulos dantescos da loucura!
Ó luta, ó luta secular, insana!

Que tu não possas, alma soberana,
Perpetuamente refulgir na Altura,
Na Aleluia da Luz, na clara Hosana
Do Sol, cantar, imortalmente pura.

Que tu não possas, Sentimento ardente,
Viver, vibrar nos brilhos do ar fremente,
Por entre as chamas, os clarões supernos.


Cruz e Souza.

27 de dezembro de 2008

TRISTEZA



Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.

Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.

Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram - pobres deles! -
Ignoraram tudo talvez.

Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.


Alfred de Musset
(Tradução de Guilherme de Almeida)

26 de outubro de 2008

QUINZE DIAS



Quinze dias ainda e mais de seis semanas
já se foram! No ror das angústias humanas,
a angústia mais cruel é viver separado!

Trocam-se as expressões de um amor dedicado,
sempre evocando o olhar, os gestos e a voz pura
daquela, cujo amor faz a nossa ventura.
Fica-se a conversar com o espírito da ausente;
mas tudo o que se pensa e tudo o que se sente,
e o que se fala à ausente, enfim, tudo, persiste
num tom de palidez imutável e triste.

Oh! a ausência fatal! a suprema desdita!
E a gente ver consolo em uma frase escrita...
Ir buscar, no infinito horror do pensamento,
com que vos levantar, sonhos, do abatimento,
porém, nada trazer que a amargo não resume!
E depois, como um frio e penetrante gume,
sulcando mais veloz que uma bala violenta,
ou que as aves cortando um marouço em tormenta,
e trazendo um veneno à ponta de uma lança,
eis que o peito nos flecha a horrível Desconfiança,
arrojada por uma estúpida Incerteza!

Não é isso mesmo? Enquanto eu, apoiado à mesa,
vou lendo a sua carta (e o pranto já começa),
doce carta em que vem uma doce promessa,
ela não estará noutras cousas pensando?
Quem sabe? Enquanto eu vou neste exílio rolando,
como um rio tristonho e de margem sombria,
o seu lábio, talvez, inocente sorria?
Talvez ela me esqueça ou viva mais contente?

E eu a carta reli, melancolicamente.


Paul Verlaine.

IMORTALIDADE



A vontade de ser forte
faz as pessoas correrem
sobre areias que ardem,
e altos copos de leite
e sanduíches de três andares
são comidos pelas bocas
mais pesquisadas do século,
bocas de homens que podem
ser maravilhosamente triturados
pelas carretas Scânias
pois seus nomes serão
descobertos pelos peritos
da Medicina Legal.


Alberto da Cunha Melo.

HOMENAGEN



Silêncio de um tecido em seda cinerário
Mais que uma só dobra pode desdobrar
Sobre o móvel que a queda do grande pilar
Derroca com a memória em estado precário.

O nosso antigo embate triunfal do glossário
Em cifra, hieróglifos de que o milhar
Se ergue a ressoar com a asa um fremir familiar!
Guardem-no, para mim, melhor, em um armário.

Do ridente fragor original odiado
Por entre as claridades, mestras viu-se alçado
Até um adro nascido para o simulacro,

Trompas fortes de baço ouro sobre velinos,
Richard Wagner, o deus, a irradiar ritual sacro
Que a tinta mal cala em soluços sibilinos.


Stéphane Mallarmé.

RIM BELO RUMO À VIRILHA*



Rim belo rumo à virilha escapa,
foge com a intenção de perfurar sentinas
ou de polir caninos entediados
na lenta escritura do deserto.

Rim belo rumo à virilha vocifera,
desatendendo sermões onde soam
os disparos da louca virgem,
seus gemidos de menina, suas lágrimas de cadela.

Rim belo rumo à virilha se incendeia,
descreve os suspiros da infiel abissínia
Seu peito atrai a pontaria dos dados.
Com saliva de ovelhas sua sede não se alivia.

Rim belo rumo à virilha se desliza,
cuspe os monarcas ladrões de fuzis,
maldiz as horrendas mães crepusculares,
o ouro na cintura o torna navegante.

Rim belo rumo à virilha manca,
nu, boquiaberto, sonhando com palácios azuis.
O tabaco do diabo transforma os relógios.
A pólvora em sua boca é um beijo sem lábios.

Rim belo rumo à virilha entardece.
Os pesadelos se disfarçam de cerdos insolados.
Saltam grãos de areia nas turbinas.
Quer vender sua alma, apodrecem seus dentes.

Rim belo rumo à virilha fecha os olhos.
Brisa de bananais refresca seu joelho.
A noite procura um farol onde cresça o impuro.
Sua cabeça raspada se parece com o destino.


* Jogo de palavras rein beau (rim belo), vers l'aine (rumo à virilha) que se pronuncia de igual maneira que Rimbaud-Verlaine.

Francisco Hernández.

O SÁBIO LOUCO



O sábio louco ia arrumando pacientemente
os pedaços de corpos humanos que caíam
que caíam como chuva
que vinham nas asas das abelhas
e nos sinais dos telégrafos Morse.

Depois da beira do abismo
um a um os corpos iam se despencando
assim mesmo de braços cruzados
atropelando no caminho
os automóveis e as almas penadas.


João Cabral de Melo Neto.

DOR ANTIGA



Sobre soluços sulco a dor antiga
como a noite afagando-me os cabelos
de escuridão, com sua mão amiga.
Fico, memória em água, a escorrê-los.

Um arrepio de passado ou medo
rasga-me a pele entre tristeza e espanto.
Deixo que o frio que me queima os dedos
morra no corpo saciado, enquanto

uma lágrima escorre para dentro,
desliza, cai e se evapora estéril.
Nem o silêncio se ouve por lamento.

Frágeis soluços desta dor antiga
estrangulo-os na noite que vem fértil
afagar-me com sua mão amiga.


José Augusto Seabra.

ALÉM



Alfim! Vais repousar, corpo meu tão franzino,
Escudo, roto já, pelos gládios da Sorte;
A decomposição completa o teu destino,
As atrações do Além levam-me além da morte.

Para o Azul, para o Azul!... Vou perlustrar espaços,
Alma, - de sol em sol, - filtro que o corpo encerra...
Melhor fora, talvez, a noite de teus braços,
Meu amor; bem melhor! nos presídios da Terra.
Exílios! De tua alma a minha alma se ausenta,
Soluças! Nosso adeus é agonia lenta,
A Quimera a morrer nos braços de um titã...

Ficas em teu solar, sigo para o Mistério...
Quando seremos - LÁ! - no infinito sidéreo,
Almas nupciais na radiosa manhâ?


Dario Velozo.

A ETERNA QUESTÃO



- "Bendita a minha dor, o amigo sofrimento
Que me livrou de mim, de ossadas e de lousas.
Pela espiral da Fé, suba-me o Sentimento,
E a Razão não se atenha ao limite das Cousas.

Irmão Asno, terás alegria e sustento,
Como os têm na existência astros e mariposas,
Por que guardes em ti liberto o Pensamento,
E asas possam nascer aos pés em que repousas.

Quando unidos, um dia, a minha alma exilada
E o corpo material - viva lâmpada de oiro -
Dos justos e de Deus chegarem à morada:
Há de ir o Sentimento esperar-me à soleira,
E a Razão rolará, desfeita, ao sorvedouro,
Poeira que ficou do meu corpo na poeira!"


Lira franciscana (1921)
Durval de Morais.

QUARTEIRÃO



Lhano um homem
Entranhável em faca
Suor lhe cabia inteiro
O chão era um homem
A corroer ranhuras
Pó feito em menos
Pó em peças velhas
O encaixar como não
Sete ônibus em ponto
Retidos em quadrado de não
O que não acima de tudo
O córtex do mendigo
Cada pedaço de papelão.


Matias Mariani.

14 de outubro de 2008

POESIA FÚNEBRE



Mão servil que o ventre da terra;
Cava.. .A vala além das raízes;
Ao calar da boca os dizeres;
As súplicas de ajuda que espera;

Derrama-se a terra sobre a púrpura urna;
Onde jaz o coração de poeta;
Antes morto que a própria carne;
Que dia a dia em sua melancolia se afunda;

Mas é, em verdade teu corpo caixão;
Teu quarto a tua cova;
A cantiga fúnebre a tua trova;

A ressoar na indiferença;
Dos seres que enterram tua herança;
Teu espírito transbordando de paixão.

Fernando de Souza Castro.

9 de outubro de 2008

BRINDE FÚNEBRE



Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombia,
Não creias que à fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de pórfiro te pus jacente.
Pelo rito, que a rocha se veja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente:
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!

Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes,dize, a Terra é o que?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
- "Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços;

O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpriesa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaiou, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhâ do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento anciliar,
Sólida tumba onde jaz o que se arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.


Stéphane Mallarmé.

13 de julho de 2008

UM OLHAR PARA A IMORTALIDADE



Para Nazarethe Fonseca


Não entendia no começo.
Achava graça a naturalidade com que falava da alma,
Como se fôssemos crianças falando de histórias imaginárias.

Juro que tentava,
Mas não conseguia entender o brilho em seus olhos,
As palavras que fluíam de sua boca.
E a certeza que emanava de sua alardeada condição.

Não, eu pensava.
Ela não deve estar em seu perfeito juízo,
Ou gosta de brincar,
Talvez vivendo como um personagem de sua ficção.

Ria por dentro,
E embarcava na conversa como num grande sonho,
Um sonho no qual eu não me preocupava se era real,
Ou se teria algum sentido.

Não percebia o óbvio.

Que na cabeça dos poetas,
Os limites são linhas estreitas,
E que não importava muito,
Se a realidade em questão era mesmo concreta,
Ou que tanto fazia se acreditassemos no que bem entendessemos,
Desde que com isso,
A nossa ânsia vital passasse a ter algum sentido,
E as nossas respostas não precisassem mais ser tão milimétricas,
Bem ao rigor do tocar com os dedos dos céticos.

Foi assim que fiz então a descoberta.
Que o que antes haveria de ser explicado,
Tornava-se muito mais vigoroso quando era sentido,
Como se, ao sentir o cheiro,
Fosse inutilizada a leitura de mil livros.

Tive a minha resposta.

Percebi que a imortalidade, minha cara,
Faz parte dos olhos dos que assim a sentem.


Fernando N.