31 de outubro de 2016

SONETO



Soneto
A Frederico Nietzsche

Para que nesta vida o espírito esfalfaste
Em vãs meditações, homem meditabundo?
- Escalpelaste todo o cadáver do mundo
E, por fim, nada achaste… e, por fim, nada achaste!…
A loucura destruiu tudo o que arquitetaste
E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!…
De que te serviu, pois, estudares profundo
O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?
Pois, para penetrar o mistério das lousas,
Foi-te mister sondar a substância das cousas
- Construíste de ilusões um mundo diferente,
Desconheceste Deus no vidro do astrolábio
E quando a Ciência vã te proclamava sábio,
A tua construção quebrou-se de repente!

12 de julho de 2016

O VIVO





Não queiras ser mais vivo do que és morto
As sempre-vivas morrem diariamente
Pisadas por teus pés enquanto nasces.
Não queiras ser mais morto do que és vivo.
As mortas-vivas rompem as mortalhas
Miram-se umas nas outras e retornam
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!)
Para amassar o pão da própria carne.
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes,
Queres ouvir e falas.
Queres morrer e dormes.
Há muito que as espadas
Te atravessando lentamente lado a lado
Partiram tua voz. Sorris.
Queres morrer e morres.   


Augusto de Campos.

14 de agosto de 2015

MINHAS MORTES ANTES DO PÂNICO


Estava vendo a tv, passava um programa de culinária. O chef colocou uma barra de manteiga para derreter na frigideira quente. Dava para ver a fumaça e a espuma da manteiga se derretendo. Não passava nada pela minha cabeça naquele momento. De repente, eu senti uma pontada no estômago, de enjôo e náusea, eu olhava pra tv e minha barriga começava a gelar. Olhei de novo para a tv e para os lados, vertia água de minha boca, percebi que começou a formigar as pontas dos meus dedos, tentei dar uma golfada mas o meu estômago estava vazio. Meus batimentos se aceleravam absurdamente.Dei um murro pro alto, tentando escapar desse estado insano que tomava conta de minha mente e corpo, nisso senti gelar a minha barriga, e daí por diante, meu corpo mole, caiu no chão, como se a morte acabasse de chegar. Senti o taco de madeira gelado na minha cara, não conseguia me mexer. Vi uma luz branca como uma raio. Gritava deitado, e tentei novamente vomitar o que não tinha em meu estômago, fiz isso por muitos minutos, numa mistura de vômito e choro desesperadora, onde sentia meu corpo amortecido e gelado, nisso eu já tinha perdido totalmente minha noção de vida, espaço, tempo ou dor. Aquilo era a morte, e pronto, não tinha mais para quem gritar. A dor da alma nestes breves minutos se torna insuportável e torturadora. O sentimento era de que eu estava morto. Molhado, meus batimentos cardíacos aceleradíssimos, meu ouvido zumbindo (não conseguia ouvir ou me atentar a nada) e meus pés e mãos estavam retraídos. Esse sentimento, que acho que a melhor tradução seria viver por dez minutos seguidos recebendo constantemente a mensagem de que a sua mãe acabara de morrer, é o que melhor traduz uma síndrome de pânico. Vivi (morri?) isso algumas vezes em minha vida. Hoje eu vivi isso de novo. Foi mais uma morte que eu tive. Mais uma morte antes do pânico. Quinze minutos depois, 2 mg de Alprazolam colocaram fim na fúnebre sensação. Mais um calo na alma, e o medo que fica de saber quando será que virá a próxima crise. Com terapias e medicações, elas vão se espaçando, e ficando mais raras, mais em situações em que vivemos extremo estresse, ela pode ser desencadeada a qualquer momento, e ainda traz na bagagem uma depressão junto. Aí, o gatilho pode disparar ao assistir um simples programa de culinária. 






20 de julho de 2014

SOBRE A MORTE E O MORRER


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Rubem Alves.




Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.

19 de agosto de 2013

O PÁSSARO AZUL








Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
eu digo, fica aí dentro, não vou deixar
ninguém
te ver.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky nele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os garçons dos bares
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele está
ali.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito duro com ele, 
eu digo, 
fica quietinho, você quer
me confundir? 
quer estragar o
meu trabalho? 
quer arruinar as minhas vendas de livros
na Europa?
Há um pássaro azul no meu coração 
que quer sair
mas eu sou muito esperto, só o deixo sair 
às vezes à noite
quando todos estão dormindo.
eu digo, eu sei que você está aí, 
então não fique
triste.
Depois coloco-o de volta, 
mas ele canta baixinho
aqui dentro, não o deixo morrer 
completamente
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é agradável o suficiente
para fazer um homem
chorar, mas eu
não choro, 
e você?

Charles Bukowski – do livro “LAST NIGHT OF THE EARTH POEMS (1992)”
Tradução de Andrew Clímaco.

29 de abril de 2013

ÉPIGRAMME DE ROBBÉ DE BEAUVESET



Pequeno autor, que, rastejando na lama, acreditas
teus retratos inspirados nos de Miguel Ângelo,
queres então ser encadernado em vitela?
Espera que para sempre tua pálpebra se cerre,
te encadernaremos em tua própria pele,
e será certamente a mesma coisa.


Pierre Honore Robbe De Beauveset



15 de outubro de 2012

AHASVERUS E O GÊNIO

























Sabes quem foi Ahasverus?...— o precito 
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!


Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande... o forasteiro
Não teve onde... pousar.
Co'a mão vazia — viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe — o grão de areia,
A gota d'água — rejeitou-lhe o mar.


D'Ásia as florestas — lhe negaram sombra
A savana sem fim — negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!...
Tabas, serralhos, tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.


Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão ...
Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração! ...


E caminhou!... E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.
Ai! Fazia tremer do vale à serra...
Ele que só pedia sobre a terra
— Silêncio, paz e amor! —


No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.
"Ele não morre", a multidão dizia...
E o precito consigo respondia:
— "Ai! mas nunca vivi!" —


O Gênio é como Ahasverus... solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.
Invejado! a invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos...
E sempre a caminhar... sempre a seguir...


Pede u'a mão de amigo — dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor — e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o mísero de glória em glória corre...
Mas quando a terra diz: — "Ele não morre"
Responde o desgraçado: — "Eu não vivi!..."

Castro Alves.

5 de julho de 2012

CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?



Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.



Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...



Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



José Régio.

3 de julho de 2012

PROVISÕES



A palavra Deus está fria
como uma máquina ao relento;
é uma palavra que morreu
sem lã, na garganta dos pobres.

Amarrado a este tronco velho
e esperando que ele apodreça,
que grito agora tu darás
para aqueles que se aproximam?

Amanhã não é propriamente
uma palavra que te salve.
É um sonho que busca outro sonho
mais longínquo, para esganar-te.

É cedo ainda porque as chamas
da ventania não chegaram,
é cedo ainda porque insistes
em contemplá-las algum dia.

Vozes isoladas nos campos
murados não se comunicam;
e alguém, que de longe te viu,
entre espinheiros fecha os olhos.


Alberto da Cunha Melo.

29 de junho de 2012

LÁGRIMAS DE SANGUE


Taedet animam meam vitae meae. 
Ao pé das aras no clarão dos círios 
Eu te devera consagrar meus dias; 
Perdão, meu Deus! perdão 
Se neguei meu Senhor nos meus delírios 
E um canto de enganosas melodias 
Levou meu coração! 
Só tu, só tu podias o meu peito 
Fartar de imenso amor e luz infinda 
E uma Saudade calma; 
Ao sol de tua fé doirar meu leito 
E de fulgores inundar ainda 
A aurora na minh'alma. 
Pela treva do espírito lancei-me, 
Das esperanças suicidei-me rindo... 
Sufoquei-as sem dó. 
No vale dos cadáveres sentei-me 
E minhas flores semeei sorrindo 
Dos túmulos no pó. 
Indolente Vestal, deixei no templo 
A pira se apagar - na noite escura 
O meu gênio descreu. 
Voltei-me para a vida... só contemplo 
A cinza da ilusão que ali murmura: 
Morre! - tudo morreu! 
Cinzas, cinzas... 
Meu Deus! só tu podias 
À alma que se perdeu bradar de novo: 
Ressurge-te ao amor! 
Malicento, da minhas agonias 
Eu deixaria as multidões do povo 
Para amar o Senhor! 
Do leito aonde o vício acalentou-me 
O meu primeiro amor fugiu chorando. 
Pobre virgem de Deus! 
Um vendaval sem norte arrebatou-me, 
Acordei-me na treva... profanando 
Os puros sonhos meus! 
Oh! se eu pudesse amar!... - É impossível! 
Mão fatal escreveu na minha vida; 
A dor me envelheceu. 
O desespero pálido, impassível 
Agoirou minha aurora entristecida, 
De meu astro descreu. 
Oh! se eu pudesse amar! 
Mas não: agora 
Que a dor emurcheceu meus breves dias, 
Quero na cruz sangrenta 
Derramá-los na lágrima que implora, 
Que mendiga perdão pela agonia 
Da noite lutulenta! 
Quero na solidão - nas ermas grutas 
A tua sombra procurar chorando 
Com meu olhar incerto: 
As pálpebras doridas nunca enxutas 
Queimarei... teus fantasmas invocando 
No vento do deserto. 
De meus dias a lâmpada se apaga: 
Roeram meu viver mortais venenos; 
Curvo-me ao vento forte. 
Teu fúnebre clarão que a noite alaga, 
Como a estrela oriental me guie ao menos 
Té o vale da morte! 
No mar dos vivos o cadáver bóia - 
A lua é descorada como um crânio, 
Este sol não reluz: 
Quando na morte a pálpebra se engóia, 
O anjo se acorda em nós - e subitâneo 
Voa ao mundo da luz! 
Do val de Josafá pelas gargantas 
Uiva na treva o temporal sem norte 
E os fantasmas murmuram... 
Irei deitar-me nessas trevas santas, 
Banhar-me na frieza lustral da morte 
Onde as almas se apuram! 
Mordendo as clinas do corcel da sombra, 
Sufocando, arquejante passarei 
Na noite do infinito. 
Ouvirei essa voz que a treva assombra, 
Dos lábios de minh'alma entornarei 
O meu cântico aflito! 
Flores cheias de aroma e de alegria, 
Por que na primavera abrir cheirosas 
E orvalhar-vos abrindo? 
As torrentes da morte vêm sombrias, 
Hão de amanhã nas águas tenebrosas 
Vos rebentar bramindo. 
Morrer! morrer! 
É voz das sepulturas! 
Como a lua nas salas festivais 
A morte em nós se estampa! 
E os pobres sonhadores de venturas 
Roxeiam amanhã nos funerais 
E vão rolar na campa! 
Que vale a glória, a saudação que enleva 
Dos hinos triunfais na ardente nota, 
E as turbas devaneia? 
Tudo isso é vão, e cala-se na treva - 
Tudo é vão, como em lábios de idiota 
Cantiga sem idéia. 
Que importa? quando a morte se descarna, 
A esperança do céu flutua e brilha 
Do túmulo no leito: 
O sepulcro é o ventre onde se encama 
Um verbo divinal que Deus perfilha 
E abisma no seu peito! 
Não chorem! que essa lágrima profunda 
Ao cadáver sem luz não dá conforto... 
Não o acorda um momento! 
Quando a treva medonha o peito inunda, 
Derrama-se nas pálpebras do morto 
Luar de esquecimento! 
Caminha no deserto a caravana, 
Numa noite sem lua arqueja e chora... 
O termo... é um sigilo! 
O meu peito cansou da vida insana; 
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora 
Eu dormirei tranqüilo! 
Dorme ali muito amor... muitas amantes, 
Donzelas puras que eu sonhei chorando 
E vi adormecer. 
Ouço da terra cânticos errantes, 
E as almas saudosas suspirando, 
Que falam em morrer... 
Aqui dormem sagradas esperanças, 
Almas sublimes que o amor erguia... 
E gelaram tão cedo! 
Meu pobre sonhador! aí descansas, 
Coração que a existência consumia 
E roeu um segredo! ... 
Quando o trovão romper as sepulturas, 
Os crânios confundidos acordando 
No lodo tremerão. 
No lodo pelas tênebras impuras 
Os ossos estalados tiritando 
Dos vales surgirão! 
Como rugindo a chama encarcerada 
Dos negros flancos do vulcão rebenta 
Gotejando nos céus, 
Entre nuvem ardente e trovejada 
Minh'alma se erguerá, fria, sangrenta, 
Ao trono de meu Deus... 
Perdoa, meu Senhor! 
O errante crente 
Nos desesperos em que a mente abrasas 
Não o arrojes p'lo crime! 
Se eu fui um anjo que descreu demente 
E no oceano do mal rompeu as asas, 
Perdão! arrependi-me!


Álvares de Azevedo.

22 de junho de 2012

TRISTEZA


Tristeza é quando chove
quando está calor demais
quando o corpo dói
e os olhos pesam
tristeza é quando se dorme pouco
quando a voz sai fraca
quando as palavras cessam
e o corpo desobedece
tristeza é quando não se acha graça
quando não se sente fome
quando qualquer bobagem
nos faz chorar
tristeza é quando parece
que não vai acabar


Martha Medeiros.


(Para Alice)

16 de junho de 2012

A ÁRVORE DA SERRA




- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha’alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

Augusto dos Anjos.

10 de junho de 2012

A QUEDA DA BASTILHA



Enfim perdi a batalha surda contra a própria mudez.
Enfim a inoperância de meus punhos
para esmurrar estes labirintos de ferro,
para desnudar o universo.

Enfim, voltei... enfim não sei mais!

Enfim me recolho com meus únicos próprios braços,
esperando, no entanto, que haja ainda alguma bondade
nestes pequenos fardos.

Enfim acato a tristeza como uma rosa frágil que é minha...

Enfim não espero nada,
mas acredito em tudo aquilo que não é passível de ser verdade.
Como sei agora,
posso embalar a verdade em meu colo
até que ela acorde, e me olhe.
Caso ela não fuja eu um dia a verei crescer...

Como os carvalhos antigos que arrebentavam o céu,
assim cresce a verdade em meu pequeno bosque.
Copas silenciosas, em nuvens vagarosas, em tardes apenas grenás.

Enfim, perdi...
mas chorei como quem vence. Então venci!


Leila Krüger

25 de maio de 2012

TERRIBILIS DEA


(Impressões do combate de Riachuelo)

Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto e a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!

Quem era? De onde vinha aquela grande imagem
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu? do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espetro ressurgir?

Deixai que se levante a grande divindade!
Seu templo é a terra e o mar, seu culto a mortandade;
Enche-lhe o peito o sopro das paixões.
É uma mulher fantasma! Uma visão de Dante,
Dos campos da batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!

A deusa do sepulcro! A pálida rainha!
A morte é sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre coorte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.

Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espetro!
De raios coroou-se! Ao peso de seu cetro
A terra tem arfado em transes infernais.
Do mundo as gerações têm visto em toda a idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais!

No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! tem risos de amargura!
Muda sempre de céu, de rumo, de farol.
Aqui - pede ao direito a voz forte e serena,
Ali - ruge feroz, feroz como uma hiena,
Assassina nas trevas, mata à luz do sol!...

Levanta o gládio nu em nome da Verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da Liberdade,
E no punho viril derrete-se o guilhão!
Como é bela!... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça, e atira com cinismo
A virgem Liberdade nos braços da Opressão!

É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glórias e os cerca de esplendor:
E esses loucos - depois de feitos de gigantes -
A túnica lhe beijam ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés na febre desse amor.

Quando Átila, o monstro, - o tigre cavaleiro,
Espumando a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na face do selvagem,
Enterrando o aguilhão nos flancos do corcel.

Era ela que em Roma erguia-se funesta!
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu.
Vergava com seu braço o braço do destino...
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em douda bacanal depois desfaleceu.

Foi de Carlos o Grande a excelsa companheira:
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial, glórias e troféus...
Quando no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus...


Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, nos desertos, em busca do Infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Coran,
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente...
Teve medo afinal daquela febre ardente;
Lá no meio do mar prendeu esse Titan!

Ela estava também serena e triunfante
Ao pé de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor,
Em doudas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror...

Ela estava também - espetro pavoroso -
Do Amazonas a bordo, ao lado do Barroso,
De pólvora cercada, em pé sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!...

Salve da guerra, deusa, arcanjo da batalha,
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate os infernais clarões,
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos:
O céu é fogo e aço, o ar - pólvora e gritos -
E corre e ferve o sangue em quentes borbotões.

Salve, tu, que nos deste o sangue da vingança!
O gládio da justiça, o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!

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Quando ela apareceu no escuro do horizonte
O cabelo revolto, a palidez na fronte,
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!...

1869

Pedro Luís Pereira de Souza.

14 de março de 2012

O ALBATROZ



Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!


Charles Baudelaire.

25 de dezembro de 2011

OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

VIAGENS 5: OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

Aos amantes uma outra vida é concedida

Hölderlin

Despertemos neste domingo de tentáculos solares que ameaçam tomar conta do resto da semana; com a persiana baixa, o quarto é penumbra dourada, entardecer constante seja qual for a hora do dia. viajantes imóveis, olhamos o filete de fumaça do cigarro plantado no centro do quarto, seu movimento vagaroso aparentando a vida dos sargaços, aguapés, labirintos, e demais símbolos da memória. Como plantas aquáticas à deriva, viemos parar aqui, fugitivos do excessivo mundo, prisioneiros voluntários deste mínimo espaço. A cada nova carícia, cada perda de mãos nos meandros do corpo do outro, transformamo-nos em personagens do mesmo sonho: o mundo finalmente reduzido à dimensão da colcha jogada sobre a cama, à geometria harmoniosa dos lençóis amassados e travesseiros náufragos. Nossa nudez é um desafio ao tempo: todas as horas formas do sempre, multiplicadas pelo mesmo gesto de acariciar-se. Possuídos da mesma calma dos rios que deságuam em seu pântano, e vão reconhecendo aos poucos suas novas margens de contornos imprecisos, suas raízes e troncos submersos, falamos pouco, pois tudo tem significado, até mesmo os gestos mais simples, acender um cigarro, tomar café. O despertar é reconhecimento e retomada dos mesmos gestos rituais, mãos construindo novos labirintos de sensação do macio e do áspero da pele, navegação de um para o outro para depois voltar a afundar nos lençóis mornos. Não fazemos questão de ser muito mais do que isto, um arquipélago de superfícies do corpo e sensações da pele. E esta umidade que só o amor consegue criar, impregnando o ar e recobrindo a parede. E os cheiros do corpo, o que dizer deles, desta aura de suor, esperma, perfume, hálito, secreção e mistério, que carregamos conosco e que nos dá a certeza de existir e estarmos vivos. Identidade com o mar, conhecimento das vozes do entardecer, memória dos passos sendo acolhidos pela areia da praia. Somos signos da terra, nos acompanha algo de chão apenas revolvido, pequenos lagos com suas plantas, florestas que ainda existem. Como tudo isto é diferente do resto, e nos torna irreversíveis. Todos os poemas o mesmo poema. Libertamo-nos, deixamos de ser prisioneiros do horóscopo. Recolocamos o mundo em seu devido lugar, após tomar uma poção mágica. Cumplicidade de samurais que se preparam para a luta em uma prontidão de espadas, sabedoria daqueles que sabem mover-se na escuridão. A percepção desentravada nesta planície de penumbra dourada de entardecer que se reflete na pele. Não importa onde você esteja agora, e quão distante. Não existem saudades, porém sóis circulando em nossas veias. Nenhuma sensação de perda ou de vazio, porém de acréscimo, alguma coisa que ganhamos nesta complicada errância pelo planeta em busca da nossa identidade. E também esta névoa familiar que pousa ao meu lado na semilucidez da vigília, feita de sensações de corpo, presenças, toques da pele, pulsações, tesão, este confuso novelo de memórias, de vozes e de cheiros, que aos poucos vai se desatando e se transformando em poema.




© Cláudio Willer 2000
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

20 de agosto de 2011

BOM DIA



Acordara exatamente como sempre o fazia. Aquela manhã não seria diferente das outras que passaram e alguma convicção o lavava a pensar que as que viessem a seguir pouco acrescentariam ao que via como nada. Era certo que algo havia de acontecer, mas nem quando, onde, porquê e muito menos com quem se podia imaginar. Relutou ainda algumas vezes antes de realmente acreditar que estava acordado. Lhe agradava no sono a possibilidade de nada existir, apenas parar enquanto o tempo passava segundo a segundo. Seria o coma sensação tão inerte e, por isso mesmo, o que buscava? Seria este o cerne de sua tão compulsiva ideação? A ausência do pensar fazia sentido. A de existir ainda não lhe era clara. Há muito que não podia lidar com tudo o que aflorava a cada movimento automático de entrada e saída de ar do seu corpo, cada batimento de seu coração. Mas enfim havia acordado. Ainda estava sozinho e aliás, tudo estava ainda igual a ontem, anteontem, tempos atrás, tempos afrente quem sabe ... Pelo menos o caminho até o banheiro não precisava ser relembrado. O primeiro banho de água no rosto fora insuficiente. Era difícil acordar realmente, mas algo tinha que acontecer. Se tivesse alguns minutos a mais, se tivesse muitas horas, poderia parar e pensar o porquê do que estava fazendo. Pouco sabia se procurar explicação poderia ser útil. A ignorância por vezes, e na maioria das vezes, ser-lhe-ia uma forte arma para escapar do sofrimento, embora o desconhecimento da causa lhe fazia penar, sem mesmo que ele soubesse disto. Luzes de vida ao ligar o rádio. Lembranças de um tempo em que buscava mais do que tinha. Ainda podia lembrar. Na verdade era só o que podia ainda ...

“Tentando ser alguém
Deixei de ser quem somos
Nada certo nem ninguém
Perdemos tantos anos”

A muito custo conseguiu ater-se ao café da manhã. Temia que tivesse a mesma insipidez que o levara a perder os quilos que por natureza já não tinha antes. O rosto já não possuía mais as frutas que demarcassem alguma bochecha e as proeminências ósseas tornavam-no ainda mais inexpressivo, não fossem os olhos encovados e tristes. Era difícil entender o motivo pelo qual aquelas estranhas e sorridentes criaturas estavam desenhadas em sua enfadonha bolacha. Talvez tivesse deixado para trás a alegria e espontaneidade típica das crianças que se deleitam com pequenos detalhes. As pílulas dos astronautas seriam mais do que suficientes ... Mas a comida não era o problema, Definitivamente não. Mesmo a melhor das tortas de morango desceria seca e amarga como um de seus repetidos pesadelos. Quisera sofrer de algum tipo de torcicolo que o impossibilitasse de olhar para a cozinha. A louça empilhada de algum tempo indefinido desanimaria mesmo os que estivessem no extremo oposto de energia. Mas sempre cabia mais alguma coisa. No fundo não havia razão para desfazer aquela simbólica presença. Já estava cheio de vazios. Mesmo assim já lhe escapava da memória o tempo em que mais de um copo sobre a mesa pudesse lhe engrandecer de satisfação.

Nem parou para pensar no porquê estava comendo. Consumiria muito do tempo que sabia não mais ter. E também porque não queria mais respostas. Já estava cheio delas. Em direção à sala, sentiu o peso das sobrancelhas na testa. Encurvou-se. A vida não mais fazia sentido, mas seria impossível sair dela por livre e espontânea vontade. Se tivesse suficiente força para tal, a usaria para viver. Pesou-lhe também o peito, como se um dos quatro quartos do coração perdesse a forma, perdesse o sangue. Pesou e doeu ... doeu ... doeu. Ainda pôde dar um suspiro e esboçar um breve sorriso e dar um “bom dia” ao negro manto que cobrira mansamente seus olhos. E então o peso das sobrancelhas derrubou-o.


Eduardo Hostyn Sabbi.

14 de agosto de 2011

PLENILÚNIO



Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida
Que lhe serve de alvíssimo sudário
Respira essências raras, toda a cálida
Mística essência desse alampadário.

E a lua é como um pálido sacrário,
Onde as almas das virgens em crisálida
De seios alvos e de fronte pálida,
Derramam a urna dum perfume vario.

Voga a lua na etérea imensidade!
Ela, eterna noctàmbula do Amor,
Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.

Ah! Como a branca e merencória lua,
Também envolta num sudário - a Dor,
Minh'alma triste pelos céus flutua!


Augusto dos Anjos.