25 de maio de 2012

TERRIBILIS DEA


(Impressões do combate de Riachuelo)

Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto e a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!

Quem era? De onde vinha aquela grande imagem
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu? do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espetro ressurgir?

Deixai que se levante a grande divindade!
Seu templo é a terra e o mar, seu culto a mortandade;
Enche-lhe o peito o sopro das paixões.
É uma mulher fantasma! Uma visão de Dante,
Dos campos da batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!

A deusa do sepulcro! A pálida rainha!
A morte é sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre coorte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.

Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espetro!
De raios coroou-se! Ao peso de seu cetro
A terra tem arfado em transes infernais.
Do mundo as gerações têm visto em toda a idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais!

No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! tem risos de amargura!
Muda sempre de céu, de rumo, de farol.
Aqui - pede ao direito a voz forte e serena,
Ali - ruge feroz, feroz como uma hiena,
Assassina nas trevas, mata à luz do sol!...

Levanta o gládio nu em nome da Verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da Liberdade,
E no punho viril derrete-se o guilhão!
Como é bela!... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça, e atira com cinismo
A virgem Liberdade nos braços da Opressão!

É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glórias e os cerca de esplendor:
E esses loucos - depois de feitos de gigantes -
A túnica lhe beijam ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés na febre desse amor.

Quando Átila, o monstro, - o tigre cavaleiro,
Espumando a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na face do selvagem,
Enterrando o aguilhão nos flancos do corcel.

Era ela que em Roma erguia-se funesta!
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu.
Vergava com seu braço o braço do destino...
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em douda bacanal depois desfaleceu.

Foi de Carlos o Grande a excelsa companheira:
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial, glórias e troféus...
Quando no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus...


Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, nos desertos, em busca do Infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Coran,
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente...
Teve medo afinal daquela febre ardente;
Lá no meio do mar prendeu esse Titan!

Ela estava também serena e triunfante
Ao pé de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor,
Em doudas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror...

Ela estava também - espetro pavoroso -
Do Amazonas a bordo, ao lado do Barroso,
De pólvora cercada, em pé sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!...

Salve da guerra, deusa, arcanjo da batalha,
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate os infernais clarões,
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos:
O céu é fogo e aço, o ar - pólvora e gritos -
E corre e ferve o sangue em quentes borbotões.

Salve, tu, que nos deste o sangue da vingança!
O gládio da justiça, o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!

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Quando ela apareceu no escuro do horizonte
O cabelo revolto, a palidez na fronte,
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!...

1869

Pedro Luís Pereira de Souza.

14 de março de 2012

O ALBATROZ



Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!


Charles Baudelaire.

25 de dezembro de 2011

OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

VIAGENS 5: OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

Aos amantes uma outra vida é concedida

Hölderlin

Despertemos neste domingo de tentáculos solares que ameaçam tomar conta do resto da semana; com a persiana baixa, o quarto é penumbra dourada, entardecer constante seja qual for a hora do dia. viajantes imóveis, olhamos o filete de fumaça do cigarro plantado no centro do quarto, seu movimento vagaroso aparentando a vida dos sargaços, aguapés, labirintos, e demais símbolos da memória. Como plantas aquáticas à deriva, viemos parar aqui, fugitivos do excessivo mundo, prisioneiros voluntários deste mínimo espaço. A cada nova carícia, cada perda de mãos nos meandros do corpo do outro, transformamo-nos em personagens do mesmo sonho: o mundo finalmente reduzido à dimensão da colcha jogada sobre a cama, à geometria harmoniosa dos lençóis amassados e travesseiros náufragos. Nossa nudez é um desafio ao tempo: todas as horas formas do sempre, multiplicadas pelo mesmo gesto de acariciar-se. Possuídos da mesma calma dos rios que deságuam em seu pântano, e vão reconhecendo aos poucos suas novas margens de contornos imprecisos, suas raízes e troncos submersos, falamos pouco, pois tudo tem significado, até mesmo os gestos mais simples, acender um cigarro, tomar café. O despertar é reconhecimento e retomada dos mesmos gestos rituais, mãos construindo novos labirintos de sensação do macio e do áspero da pele, navegação de um para o outro para depois voltar a afundar nos lençóis mornos. Não fazemos questão de ser muito mais do que isto, um arquipélago de superfícies do corpo e sensações da pele. E esta umidade que só o amor consegue criar, impregnando o ar e recobrindo a parede. E os cheiros do corpo, o que dizer deles, desta aura de suor, esperma, perfume, hálito, secreção e mistério, que carregamos conosco e que nos dá a certeza de existir e estarmos vivos. Identidade com o mar, conhecimento das vozes do entardecer, memória dos passos sendo acolhidos pela areia da praia. Somos signos da terra, nos acompanha algo de chão apenas revolvido, pequenos lagos com suas plantas, florestas que ainda existem. Como tudo isto é diferente do resto, e nos torna irreversíveis. Todos os poemas o mesmo poema. Libertamo-nos, deixamos de ser prisioneiros do horóscopo. Recolocamos o mundo em seu devido lugar, após tomar uma poção mágica. Cumplicidade de samurais que se preparam para a luta em uma prontidão de espadas, sabedoria daqueles que sabem mover-se na escuridão. A percepção desentravada nesta planície de penumbra dourada de entardecer que se reflete na pele. Não importa onde você esteja agora, e quão distante. Não existem saudades, porém sóis circulando em nossas veias. Nenhuma sensação de perda ou de vazio, porém de acréscimo, alguma coisa que ganhamos nesta complicada errância pelo planeta em busca da nossa identidade. E também esta névoa familiar que pousa ao meu lado na semilucidez da vigília, feita de sensações de corpo, presenças, toques da pele, pulsações, tesão, este confuso novelo de memórias, de vozes e de cheiros, que aos poucos vai se desatando e se transformando em poema.




© Cláudio Willer 2000
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

20 de agosto de 2011

BOM DIA



Acordara exatamente como sempre o fazia. Aquela manhã não seria diferente das outras que passaram e alguma convicção o lavava a pensar que as que viessem a seguir pouco acrescentariam ao que via como nada. Era certo que algo havia de acontecer, mas nem quando, onde, porquê e muito menos com quem se podia imaginar. Relutou ainda algumas vezes antes de realmente acreditar que estava acordado. Lhe agradava no sono a possibilidade de nada existir, apenas parar enquanto o tempo passava segundo a segundo. Seria o coma sensação tão inerte e, por isso mesmo, o que buscava? Seria este o cerne de sua tão compulsiva ideação? A ausência do pensar fazia sentido. A de existir ainda não lhe era clara. Há muito que não podia lidar com tudo o que aflorava a cada movimento automático de entrada e saída de ar do seu corpo, cada batimento de seu coração. Mas enfim havia acordado. Ainda estava sozinho e aliás, tudo estava ainda igual a ontem, anteontem, tempos atrás, tempos afrente quem sabe ... Pelo menos o caminho até o banheiro não precisava ser relembrado. O primeiro banho de água no rosto fora insuficiente. Era difícil acordar realmente, mas algo tinha que acontecer. Se tivesse alguns minutos a mais, se tivesse muitas horas, poderia parar e pensar o porquê do que estava fazendo. Pouco sabia se procurar explicação poderia ser útil. A ignorância por vezes, e na maioria das vezes, ser-lhe-ia uma forte arma para escapar do sofrimento, embora o desconhecimento da causa lhe fazia penar, sem mesmo que ele soubesse disto. Luzes de vida ao ligar o rádio. Lembranças de um tempo em que buscava mais do que tinha. Ainda podia lembrar. Na verdade era só o que podia ainda ...

“Tentando ser alguém
Deixei de ser quem somos
Nada certo nem ninguém
Perdemos tantos anos”

A muito custo conseguiu ater-se ao café da manhã. Temia que tivesse a mesma insipidez que o levara a perder os quilos que por natureza já não tinha antes. O rosto já não possuía mais as frutas que demarcassem alguma bochecha e as proeminências ósseas tornavam-no ainda mais inexpressivo, não fossem os olhos encovados e tristes. Era difícil entender o motivo pelo qual aquelas estranhas e sorridentes criaturas estavam desenhadas em sua enfadonha bolacha. Talvez tivesse deixado para trás a alegria e espontaneidade típica das crianças que se deleitam com pequenos detalhes. As pílulas dos astronautas seriam mais do que suficientes ... Mas a comida não era o problema, Definitivamente não. Mesmo a melhor das tortas de morango desceria seca e amarga como um de seus repetidos pesadelos. Quisera sofrer de algum tipo de torcicolo que o impossibilitasse de olhar para a cozinha. A louça empilhada de algum tempo indefinido desanimaria mesmo os que estivessem no extremo oposto de energia. Mas sempre cabia mais alguma coisa. No fundo não havia razão para desfazer aquela simbólica presença. Já estava cheio de vazios. Mesmo assim já lhe escapava da memória o tempo em que mais de um copo sobre a mesa pudesse lhe engrandecer de satisfação.

Nem parou para pensar no porquê estava comendo. Consumiria muito do tempo que sabia não mais ter. E também porque não queria mais respostas. Já estava cheio delas. Em direção à sala, sentiu o peso das sobrancelhas na testa. Encurvou-se. A vida não mais fazia sentido, mas seria impossível sair dela por livre e espontânea vontade. Se tivesse suficiente força para tal, a usaria para viver. Pesou-lhe também o peito, como se um dos quatro quartos do coração perdesse a forma, perdesse o sangue. Pesou e doeu ... doeu ... doeu. Ainda pôde dar um suspiro e esboçar um breve sorriso e dar um “bom dia” ao negro manto que cobrira mansamente seus olhos. E então o peso das sobrancelhas derrubou-o.


Eduardo Hostyn Sabbi.

14 de agosto de 2011

PLENILÚNIO



Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida
Que lhe serve de alvíssimo sudário
Respira essências raras, toda a cálida
Mística essência desse alampadário.

E a lua é como um pálido sacrário,
Onde as almas das virgens em crisálida
De seios alvos e de fronte pálida,
Derramam a urna dum perfume vario.

Voga a lua na etérea imensidade!
Ela, eterna noctàmbula do Amor,
Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.

Ah! Como a branca e merencória lua,
Também envolta num sudário - a Dor,
Minh'alma triste pelos céus flutua!


Augusto dos Anjos.


18 de fevereiro de 2011

INGRATIDÃO



Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...


Raul de Leôni.

4 de fevereiro de 2011

CINCO POEMAS PARA TEMPOS DIFÍCEIS



CATECISMO
Água benta para os olhos
ícone de circuitos e tentáculos
vaivém de saberes e cascalhos
sagrados venais profanos

agora somos cibernéticos
nem gregos nem moicanos
todos os dias oramos
Ave Maria à internet.



GUERRA
Trovão
das mortes

clareia
o carvão.



CONDIÇÕES ATMOSFÉRICAS
A noite permanece triste
no subúrbio.
Os animais humanizam os cartazes
de propaganda.
É de metal a passagem dos meses.

Pouco sabemos
do tempo vindouro.
As névoas
movimentam-se entre guindastes.

Tão indelicada
a chuva
fora de hora...



FENDA
Já não repito
os mesmos
nítidos
idos gestos

entre lábios
cresce
orvalho
o novo travo.

Não sai o som
da voz
na manhã seguinte
com igual exatidão:

mudei
de mim?

Entre ontem
e amanhã
minha face
tem o rosto
- de quem?



POÉTICA
Sem autoria e sem versos a poesia será encontrada
na pedra
no rosto e na copa das árvores ensimesmada

sinal
da sina
cor nos azulejos

o abraço das palavras
renova a presença das portas
e janelas de uma casa.

A poesia sim
se presta à prosa
da vida

invisível porcelana.




Fernando Paixão.
(Folha de São Paulo, Ilutríssima, 5.12.2010)

3 de fevereiro de 2011

OS MORTOS



Os mortos não tomam chá

nem sentam

ao piano esquecido aberto.



Os mortos não velam

nossas horas debruçadas sobre suas gavetas.

E, se interrogam fundamente o outro lado do espelho,

sequer nos reconhecem.



Os mortos ficam mortos porque assim se concebem.

E há muito trocaram os porta-retratos

por outras formas, mais refinadas, de desprezo.




Claudio Neves.

19 de dezembro de 2010

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS...



Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


Alphonsus de Guimaraens.

11 de outubro de 2010

O PIROTÉCNICO ZACARIAS



E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como
a do meio-dia; e quando te julgares consumido,
nascerás como a estrela-d’alva.
( Jó, XI, 17)


Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou
de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria
morrido o pirotécnico Zacarias?
A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham
que estou vivo — o morto tinha apenas alguma semelhança
comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha
morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo
a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma
penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há
os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e
não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista
pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu
corpo não foi enterrado.
A única pessoa que poderia dar informações certas sobre
o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os
meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela
frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e
não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos
que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou
morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais
agrado do que anteriormente.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um
negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho
compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso
com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue,
quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel
e me matou.
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Presente!
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me
faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma
força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas
ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus
dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo,
que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem
queimá-las, todavia.
— “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento
é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo
tirem os seus chapéus!”
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados
pelo arco-íris.)
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Não está?
— Tire a mão da boca, Zacarias!
— Quantos são os continentes?
— E a Oceania?
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava
na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram
compridas, tão longas que obrigavam dona Josefina a ter os pés
distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta
por fios de barbante, quase encostada no teto.
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Meninos, amai a verdade!
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos
não tardariam a cobrir o céu.
Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas
curvas, silêncio, mais sombras que silêncio.
O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se
encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente
porque não seria naquela noite que o branco desceria até a
terra.A s moças que vinham no carro deram gritos histéricos e
não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-
se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir
qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um
negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho
compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso,
com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado,
quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem
os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de
homens.
Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes
não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade,
dosando a gíria.
Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver
— o meu ensanguentado cadáver — não protestava contra
o fim que os moços lhe desejavam dar.
A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar
para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve
discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu
a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia
ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar
ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente
enganados, como explicarei mais tarde.)
Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que
se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito
no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem
as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros
não deram importância à proposta. Limitaram-se a
condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e
a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver
do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem
encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar,
visivelmente encabulado.
Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em
virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que
decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam
indistintamente defuntos e vivos. (Esse argumento não me
ocorreu no momento.)
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram
que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que
margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar
cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre
mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis
complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério
onde nada existe de misterioso.
Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me
interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e
ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda: o
meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido
entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse,
jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu
nome não ocuparia as manchetes dos jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno
necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir
rápido e decidido:
— Alto lá! Também quero ser ouvido.
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando
desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem
um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me.
Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer
os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da
lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu
vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e
irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus
matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus
com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos,
sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas
razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para
tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de
dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados
geralmente atribuídos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente
aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir‑me
no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida
com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram
somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava
uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado.
O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão
no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que
abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o
meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas
de Jorginho, o que me prontifiquei a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro,
concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas
do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar
com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável
que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em
torno da sua pessoa.

* * *

Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito
nítidas. A bebida, que antes da minha morte pouco me afetava,
teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente.
Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava,
triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras,
cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a
ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o
corpo transmudado em longo braço metálico.
Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava.
Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo‑me
que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser
impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti
diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse
a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar
as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio
entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam
ao colorido das paisagens estendidas na minha frente.
Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando
constatei que a morte penetrara no meu corpo.
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me
vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma
nova existência.
Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se
tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso,
nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava
o meu falecimento.
Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus
companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E
eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora
a minha morte.
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu
sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de
convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da
cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a
diferença de que aquele era vivo e este, um defunto.
Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino
reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?
E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude,
que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem
superior à dos seres que por mim passam assustados.
Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como
nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que,
mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência
se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra
para exclusiva ternura dos meus olhos.


Murilo Rubião.

22 de setembro de 2010

DENTRO DE MIM UM MENINO



O meu tempo já se vai longe
Mas, tenho dentro de mim um menino
Que ainda traz o fascínio latente no peito,
E a esperança estampada no olhar,
Querendo viver um grande amor,
Tantas quantas forem às horas que restar.

Volto no passado e me pego chorando,
A saudade do amor primeiro.
Brincando de doutor, fazendo escolinha,
Pés no chão, coração ao léu, suspiros inocentes,
Sonhando acordado, ser príncipe valente,
Acordar com um beijo, minha princesa encantada.

Eu queria ter uma fada madrinha,
Que me voltasse aos tempos de menino
Que me ensinasse uma bela canção,
Que me trouxesse de volta,
A minha primeira emoção

Hoje, atravessando as alamedas da vida
Ainda me sinto um menino
Que não perdeu a esperança,
E que guarda no peito a mesma ilusão
De viver um lindo amor de criança.


Jose Aparecido Botacini.

ORGULHO



Por quanto tempo você lutaria
A luta inglória do esquecer forçado,
Cerrando a lágrima, calando o brado
Da voz que insiste no amor-fantasia?!

Se o pulsar acelera, inconformado,
Só de lembrar os dias de alegria,
Por quanto tempo você negaria,
No esforço vão de apagar o passado?!

Em que plano sua mente insistiria?!
Pra qual outro Universo fugiria,
Se o coração diz que este é o seu lugar?!

Pois mesmo atravessando a eternidade,
Sufocando o dom da felicidade,
A voz do amor jamais há de calar...

Ederson Peka.

21 de setembro de 2010

PROGRAMA



Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?


Wilhelm Klemm.

(1915)

O VISIOTÁRIO



Lâmpada, não esquente.
Da parede saiu um braço magro de mulher.
Era pálido e tinha veias azuis.
Os dedos estavam carregados de preciosos anéis.
Quando beijei a mão, assustei-me:
Estava viva e quente.
Arranhou-me o rosto.
Peguei uma faca de cozinha e cortei algumas veias.
Um grande gato lambeu graciosamente o sangue do chão.
Entretanto um homem de cabelos arrepiados subiu
Por um cabo da vassoura encostado à parede.

Jakob van Hoddis.
(1918)

10 de setembro de 2010

À DISCÓRDIA



Pouco importa amarrar com mão valente
A Discórdia infernal, com cem cadeias,
Que ela tem subtilezas, tem ideias
De saber desligar-se facilmente.

De que serve lançar limpa semente
Em chão infecto, de zizânias feias,
De ervilhacas, lericas, joio, aveias,
Sem os campos limpar primeiramente?

Ninguém, té gora, à ligadura górdia
O nó soube desdar, que o vil Egoísmo
Empata as vazas à geral Concórdia.

Não se pode extinguir o Despotismo,
Nem acabar c'o império da Discórdia,
Sem cortar a raiz do Fanatismo.

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'

3 de setembro de 2010

PASSAGEM DAS HORAS



Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida —
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...

Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
O baú das iniciais gastas,
A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
A Brígida prima da minha tia,
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!
Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida...

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavisnio,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
Não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido
Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho ... Helahoho ...

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho ----

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
Rola ...

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
Tosse seca, nova do que sai de casa,
Leve arrepio matutino na alegria de viver,
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
Inevitavelmente vital,
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...

Toda a madrugada é uma colina que oscila,
...................................................................
... e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
Do rodopio parado da minha retentiva seca,
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
Passeio lojistas "perdão" rua
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objetos projéteis!
À moi, todos os objetos direções!
À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as idéias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
...............................................................
...............................................................
...............................................................
...............................................................

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...


Álvaro de Campos, 22-5-1916

31 de agosto de 2010

NASCIMENTO



Montanhas: negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.

Silêncio da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.

Oh, o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,

E pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas

Iluminam os olhos da anciã pétrea.

Dor, grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.


Georg Trakl.
(tradução: Cláudia Cavalcante)

21 de agosto de 2010

A GENIALIDADE EM PESSOA



Difícil é precisar quem a arte e quem o artista. Quem o criador, quem a criatura, quem o louco ou quem a loucura. Hora um, e tantas vezes outros, seus feitos, feito verdades inacabadas, encontraram nas turvas páginas do tempo o não espaço perfeito para recriar o seu mundo. E assim, contrariando as predições de todos os vates, que nada disseram a seu respeito, apoderou-se de uma pena que, tendo pena de seus prantos, atendeu aos seus delírios: haja vida! E a vida se fez. Nascia um amigo sem rosto e sem alma, porém à sua neurastênica imagem e semelhança psíquica, com quem trocou as ngênuas confidências de um menino prodígio. Menino que, como criatura, experimentou a dor da perda ecoce, do medo, do exílio e da solidão. Como criador a si mesmo devorou o estro e, com a irreprimível benevolência dos iniciados, poupou a costela do ser criado, retirando de suas próprias entranhas outros, e tantos que os sucederam, para que se cumprisse o profético: crescei e multiplicai-vos! - emudecido nas entrelinhas de uma epístola nunca escrita. Sendo o criador, nada ordenou, nada pediu, apenas sugeriu que salpicassem de sonhos a terra e que todas as artes se ubmetessem a uma reverificação.

Para que se cumprissem os desígnios de uma verdade artística, generosamente, deu às suas criaturas as próprias mãos. E, numa demonstração de desapego às glórias efêmeras, delegou ao mais simples dos criados, o atributo de mestre a quem se submeteu bem como lhe seguindo o exemplo o fizeram, campos, reis e outros inexistentes seres.

Não estamos diante de um ser incriado, conta-se que seu surgimento se deu no final do século desenove. O pai, funcionário público e crítico musical nas horas de ócio, de quem o inquieto menino herdara o gene da arte, o deixou muito cedo, uma perda que, por toda vida, lacunaria sua inocente alma. A mãe, em seguida, desposada, vai dividir o afeto com os membros de uma nova estirpe, deixando ao pequeno gênio, sobrados motivos para quedar-se cismativo e absorto, ante a voluptuosidade do delírio que lhe perturbava o espírito.

Uns o tinham como louco. Outros o concebiam como um gênio, daqueles que surge a cada mil anos. Quanto a ele por si mesmo, apenas um “fingir dor.” Se ninguém é profeta em sua terra, compreende-se o não reconhecimento de sua MENSAGEM, a perseguição aos seus ideários e a incompreensão dos seus ensinamentos. Teria ele vivido à frente do seu tempo? Quanto tempo? Ou teria sido aquele que haveria de destruir todos os clássicos e reedificá-los sob o primor de uma nova estética? Porém, vindo despido dos convencionalismos que maculavam a ntelectualidade vigente, foi rejeitado, injustiçado e oprimido, principalmente por aqueles que necessariamente deveriam compreendê-lo.

Eis o destino de um profeta. Não bastasse a demonstração de humildade ao servir quando deveria ser servido, precisou também testificar seus milagres. Conta-se que ao lançar sua verve no translúcido mar de palavras, tantas e diversificadas foram as produções que, as folhas de papel, tornaram-se escassas e as almas dos seres insuficientes para absorvê-las. Ainda assim, muitos foram os que o subjugaram.

Viveu este homem privado de todos os confortos que almejam os mortais. Na solidão de seu humilde aposento, teve como companheiros seus delírios e suas lágrimas e como refúgio “o fundo de uma depressão sem fundo”. Aos quarenta e sete anos, era um velho cansado, tamanho o peso de todas as dores, medos e angústias que jaziam em suas retinas. A causa-morte continua um indelével mistério como misteriosa também foi sua tenra vida. Sabe-se apenas que naquela fatídica noite de novembro do ano de mil novecentos e trinta e cinco, seu corpo, ébrio e dorido, entregava-se às agruras da terra, enquanto sua alma, abstêmia liberta, recebia as glórias do universo.

No principio era o verbo, e o verbo estava com ele, e o verbo era ele. Todos os outros foram feitos por meio dele e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a verve e a verve era luz da vida. A luz resplandece nas mentes, mas a sua arte prevaleceu sobre ela. Certamente, Amém!


João Nery.

16 de agosto de 2010

MISÉRIA



Era já noite cerrada,
Diz o filho: "Oh minha mãe,
Debaixo d'aquella arcada
Passava-se a noite bem!"

A cega, que todo o dia
Tinha levado a andar,
A taes palavras do guia
Sentiu-se reanimar.

Mas saltam dois cães de gado,
Que eram como dois leões:
Tinha-os à porta o morgado
Para o guardar dos ladrões.

Tornam os pobres à estrada,
E aonde haviam de ir dar?
Ao palácio da tapada
Onde el-rei ia caçar.

À ceguinha meia morta
Torna o filho: "Oh minha mãe,
Ali no vão de uma porta
Passava-se a noite bem!"

- Se os cães deixarem... (diz ella,
A triste n'um riso amargo),
Com effeito a sentinela:
- "Quem vem lá?... Passe de largo!"

Então ceguinha e filhinho,
Vendo a sua esperança vã,
Deitaram-se no caminho
Até romper a manhã!...


João de Deus.

14 de julho de 2010

A UM PIOLHO



1.
Oh! onde vais, criaturinha rastejante?
Tua impudência te protege fortemente,
Só te posso dizer que estranhamente
Andas em gaze e renda,
Embora, oh Deus! tema que hás de jantar
Num tal lugar.

2.
Oh tu, animalito feio, malfazejo e andejante,
Detestado, desprezado por pecadores e santos!
Numa dama tão fina, como ousas
Pousar o pé!
Some daqui e procura teu jantar
Na tua ralé.

3.
Fora! vai rastejar nas têmporas de um mendigo,
A arrastar, estirar e escarrapachar as patas
Pulando no gado, entre teus semelhantes,
Em grupos ou enxames;
Onde chifre ou osso jamais perturbarão
Tua vasta plantação.

4.
Agora, queda-te aí! estás fora de vista,
Firme e confortável sob os ornamentos;
Não, por minha fé, não ficarás contente
Enquanto não te alçares
Ao píncaro, ao ponto mais elevado
Do chapéu de madame.

5.
Homessa! ousas mostrar o focinho,
Como uma groselha, cinzento e roliço:
Oh, uma pasta mercurial e pestífera,
Ou algum pó vermelho mortífero
Em tal dose te daria, que a catinga
Do teu traseiro consertaria!

6.
Surpresa não me faria te encontrar
Na touca de flanela de uma velha;
Ou talvez nalgum moleque maltrapilho
Em sua jaqueta;
Mas no elegante Lunardi de madame pousar?!
Como ousas? Fora!

7.
Oh, Jenny, não vira tua cabeça
A pavonear e exibir tua beleza!
Mal imaginas a maldita presteza
Com que este ínfimo ser rasteja!
E já de seus olhos odientos e agudas garras
Começas a te aperceber!

8.
Oh, se algum Poder nos concedesse
Vermo-nos a nós como nos vêem!
Nos livraríamos de tantos vexames,
E tão falsas impressões:
Sem mais nos exibir com gestos e roupagens,
Até nas devoções!


Robert Burns.

13 de junho de 2010

RASTEJANTE MALDITO



Faminto em profunda decadência
e miséria rasteja o trôpego,
em sua desgraçada vida
o indigente apenas existe.

Farejava dor e putrefação,
ao mastigar restos e carniça
nomeado mordazmente:
rastejante Maldito.

Rejeitado com chorume nas veias
sua carne repuxada sustentava
uma pele cadavérica
que sorria doentemente.

Distante de nossos sentidos
a fantasmagórica criatura
desejava uma vida verdadeira
mas só levou migalhas e surras.

Morreu! Um sem-número de cabeças
observam seus restos mortais
negando que sua origem
é o mesmo ventre nos pariu.


Mensageiro Obscuro.

7 de junho de 2010

COMPARAÇÃO



Forte e constante é seu bailado,
Vento que sopra do sertão.
Dobrando sem pena, arbustos e árvores,
Varrendo lembranças, e jogando no chão.

Fazendo o tempo, ficar melancólico,
Escuro, e chuvoso, com raios e trovões.
Mudando o pensar, da gente que pensa,
Cristalizando almas, abafando emoções.

É hora de sentar-se, quieto à mesa,
Num canto, a esmo, e com a solidão.
Colocar-se à frente, de uma vela acesa,
Geralmente curta, e sem quase clarão.

Fazer debruçar, sobre os braços cansados,
O olhar nessa chama, devagar se acabando.
Comparando assim, com o amor que já teve,
Sem entender do porque, e ver tudo findando.

Essas coisas na vida, acontecem e nos mostram,
Nada somos comparados, com que o destino arruma.
Nesse pensar, cerrei meus olhos, demais sonolentos,
Dormi na escuridão, e sem paz nenhuma.


José Silveira.

6 de junho de 2010

ANGÚSTIA



Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.


Stéphane Mallarmé.

29 de maio de 2010

NÉVOAS



Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada — sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve — puríssima e nua —
Um raio da lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?
E as asas, de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam — e as névoas tremiam
— E os gênios corriam — no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapores — mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
– Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam.
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em — neblina!


Fagundes Varela.

19 de maio de 2010

HOJE DE MADRUGADA



O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhos em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.


Raduan Nassar.
Extraído da crônica Menina Caminha;
Palavras e Corpos - Na Segunda Clínica de Lacan
Seminário - USP - Jorge Forbes

25 de abril de 2010

OBSCURA POESIA



A obscura poesia arde em minhas veias, dilacera as entranhas de meu ser, ferindo de forma profunda minha carne jovial. Poesia voraz estoura os balões de pensamentos e com torpor impiedoso lança-me em um vale de dor, onde o sofrer é constante.

Poesia ditada por profusão de lágrimas cálidas. As palavras grotescas lançam-se sobre o papel. Com ranger nos dentes escrevo a poesia filha da dor.

Não há nada de belo ou de bom por aqui, só existe a dor estampada no papel, somente a lastima e a desesperança. Vou redigindo de forma endoidecida o caos do existir... e meus olhos raiados de sangue nada conseguem ver no porvir.

Bem sei que a dor é má conselheira, que ela consome a beleza dos dias, mesmo sendo sabedor, sem protestar a abraço em um abraço triste e sem graça. Assim acalmo os clamores de socorro do meu espírito. Compreendo neste abraço letárgico que aceitar a fúria da dor é um bálsamo, que alivia o passar doloso dos dias.

Padeço! Eu poeta confuso, padeço! Aceitando a dor e a verdade dos dias. Padeço!

E assim sem querer sem entendido, aceitando a dor, extasiado pela dor, dou vida à obscura poesia.


Robson.

23 de abril de 2010

A UMA MENDIGA RUIVA



Ruiva e branca a aparecer,
Cuja roupa deixar ver
Por seus rasgões a pobreza
Como a beleza,

A mim, poeta sofredor,
Teu corpo de um mal sem cura
Todo manchas de rubor,
Só tem doçura.

E calças (muito mais bela
Que a Rainha da Novela
Com os seus coturnos brancos)
Os teus tamancos.

Em vez de molambos, mal
Não te iria a roupa real,
Cegando as ondulações
Até os talões;

Em vez de meia de crivos,
Para os olhos dos lascivos
Um punhal na perna linda
Brilhasse ainda;

E laços mal apertados
Mostrem aos nossos pecados
Os teus seios a brilhar
Como um olhar;

Para seres desnudada
Tu te faças de rogada.
Possam expulsar teus braços
Dedos devassos;

Pérolas formosas, ou
Poema do mestre Belleau
Que os galantes na prisão
Sempre te dão,

A chusma dos rimadores
Dedicando-te primores,
Contemplando-te o escarpim
No varandim,

Muito pagem a sonhar
E muito senhor Ronsard
Olhariam com sigilo
Teu fresco asilo!

No leito dos teus delírios
Terás mais beijos que lírios
Tua lei dominará
Mais de um Valois!

Porém segue a tua lida,
Só por sobras de comida
Jogadas por distanciadas
Encruzilhadas;

E só quer teu sonho louco
Jóias que valem bem pouco
Que eu nem posso, ó Deus clemente,
Dar de presente.

Nada te orna neste instante,
Perfume, rubim, diamante,
Só tua nua magreza!
Minha beleza!


Charles Baudelaire.

16 de abril de 2010

AFASTANDO A MORTE



É preciso pensar o tempo todo,
Pensar em pessoas, coisas e fatos,
Pensamentos abstratos,
Devem nos por sempre ocupados.

Não cessemos um minuto sequer,
Tomemos nossa mente com idéias
Nem um segundo pode ficar descoberto,
Desse nosso pensamento objeto.

Mente sem pensamento vira caldeira,
Onde fervilham, sobremaneira
Um mosto em contínuo consorte,
Ocupando a mente, a fugir da morte.

Nada de surpreendente,
Apenas a ocupação constante da mente
Foi a forma por nós encontrada,
De não buscarmos antes uma forma de retirada.


Fernando N.

5 de março de 2010

OUROBOROS



Em algum momento certamente você foi avisado.
A esquina poderia não ter sido dobrada,
O caminho percorrido poderia ter sido o outro e não o escolhido.
Escolheste errado.

Ficastes lá mesmo onde estavas, melhor teria sido.
Não terias visto o maltrapilho encoberto pelas chagas,
Nem a mãe faminta que acabara de abandonar o filho.
Ficastes lá.

De quem é a escolha, é aleatória ou optativa?
Quem escolheria ver a vergonha, em um rosto ensandecido,
Ou vibraria ao se comparar, com o mais parco convalido?
Se for escolha, então que seja devolvida.


Fernando N.

LIDANDO COM A PERDA



A dor da perda é comum a todos nós...


Sempre estamos, dependendo a época, mais ou menos, sofrendo com a perda de algo....

E a perda não está só relacionada a morte de alguém.


Perder algo traz dor ao coração, a alma. Sofremos, choramos, gritamos, pensamos e depois, depois de muitos refletir e chegar à alguma conclusão, seguimos em frente. Mas não somos mais ou mesmos pois, tanto as perdas como os ganhos, nos moldam e nos tornam melhores ou piores do que éramos antes. Nunca iguais.


Mas o perder é uma ilusão. Uma das piores ilusões.

A ilusão é algo que acreditamos ser real, mas no fundo não o é.


Por que digo que a perda é uma ilusão?

Porque não temos nada, de fato.

Nascemos, fruto da fecundação do espermatozóide no óvulo (sem aula de ciências, até porque está parte a grande maioria já sabe né?) etc e tals...

Crescemos e passamos a acreditar que somos dono das coisas: da chupeta, do brinquedo, do berço, do quarto, da mãe, do pai, do caderno, da lancheira, do cachorro, dos amigos, do serviço, do grupo da facul, do namorado, dos filhos, do dinheiro, da casa inteira, do(s) carro(s), da conta do banco, do futuro dos filhos e , por fim, morremos de uma forma ou outra.

Isso tudo é uma ilusão pois, se analizarmos bem, no fundo, nada é nosso.

Tudo está aqui e desfrutamos do que está aqui, mas nada é nosso, pois nada é estável, tudo muda.

Qualquer pessoa que nesse momento está viva, pode ser uma criança que está nascendo neste exato momento ou qualquer um dos mais de 6 bilhões de seres humanos que vivem neste planeta, todos eles, daqui há 120 anos, estarão todos mortos, inclusive eu, é claro.


Todas as contruções que existem hoje, da casa mais simples até o prédio mais sofisticado, um dia cairão. Que esse dia chegue daqui há 1.500 anos, mas chegará. Pois o tempo é, nada mais, do que uma sucessão infinita de instantes...que classificamos como horas, minutos e segundos ( e milésimos de segundos!).


Nem este "nosso" corpo é nosso. Pois um dia ele irá morrer. Nós não morreremos, pois a vida é eterna, mas o corpo morre.Todas as células morrerão. O que restar, será devorado pelos vermes ou, caso seja cremado, se tornará cinzas que um dia também irão sumir no meio do nada....


Portanto, tocando no assunto da perda, se nada é nosso, como podemos perder algo?

Namoros conflitantes... as pessoas acham que são donas umas das outras.


" aquele é meu namorado!" dizem... mas no fundo..ninguém é de ninguém. Temos todos a livre vontade de ir e vir, ficar eu partir, ligar ou não ligar, importar ou não se importar...

Mas o ser humano é um ser egoísta, e tudo que vê e ouve quer pra si, como se pudesse controlar tudo e a todos.

Diz ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY, autor do Pequeno Príncipe " Amar não é uma pessoa olhar em direção a outra, mas as duas olharem na mesma direção".


Pior do que achar que coisas são suas, é achar que pessoas são suas.

O ciúmes, tão comentado por este mundo a fora, é puro resultado do medo de perder o outro...

mas se o outro tem a livre vontade de estar com a pessoa, então está porque quer..e se está porque quer, como iria perder?


Lidar com o sentimento de posse ( e consequentemente com o de perda) é algo que poucos seres humanos sabem lidar com...

Não digo que não devemos ter coisas..sim..eu mesmo adoro..as coisas que tenho..mas no fundo sei que não minhas de verdade...

O sofrer surge do perder. Quando não conseguimos algo que queremos também lidamos com a perda: um trabalho que não rolou... um filme que não conseguimos ver...um casamento que se foi..um filho que vai morar só...enfim..tudo isso...


E , uma vez que nada é nosso de fato, não deveria haver a perda.Mas como somos iludidos e achamos que tudo é nossa, sofremos.

A chave para a solução dos sofrimento está em saber lidar de forma correta com os desejos e saber que, querer ter coisas é bom, mas ser escravo delas não o é.


Hoje eu aprendi a lidar com a perda.Mesmo sabendo que o que perdi não era meu..sentirei falta do bem que me fazia, mas que, por uma série de motivos, não era mais possível " ter" o que eu tinha...

Talvez sejamos todos como uma borboleta..num casulo...antes de ser borboleta era lagarta. Em sua vida rudimentar faz o que pode para viver...mas uma hora ela decide que não dá mais e fica em seu casulo..um dia..será uma borboleta e verá como é bom voar muito além do que a tola lagarta que só caminhava..aliás..não diria tola...da pobre lagarta..pois foi com a experiência que ganhou sendo lagarta que pode, nesse dia, ser uma borboleta.


A vida segue em frente...e , como eu disse, já sou diferente do que era ontem..pois um homem não entra duas vezes no mesmo rio..já que pela segunda vez que ele entrar, nem ele, nem o rio, são os mesmos.



Rick Friano.
Publicado no Recanto das Letras em 26/12/2008
Código do texto: T1353094
(Texto de Luiz Ricardo T. Friano, São Paulo, Brasil.)